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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Pacheco pereira : Demasiado lampeiros para serem sérios

Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de salamaleques politicamente correctos.

A língua portuguesa está cheia de palavras certíssimas para designar quase todas as cambiantes do comportamento humano. Escritores como Vieira, Bernardes, Camilo, Eça e Aquilino, levaram-na tão longe, que em português tudo se pode dizer, todas as infinitas flutuações das pessoas encontram uma ágil palavra para as designar.
Agora que a nossa bela língua está a ser atacada por todos os lados, na sua ortografia, na sua complexidade vocabular, na sua riqueza expressiva, é sempre bom encontrar um refúgio nos falares antigos, ou naqueles que pouco a pouco estão a ser esquecidos por falta de uso. A semana passada falei de “tresvaliar”, palavra de Sá de Miranda, e esta semana Fernando Alves na TSF fez uma crónica sobre “surdir”, palavra usada por Camilo (sempre ele) e Eça, tudo palavras esquecidas.
O que se passa hoje é como se, invisivelmente, se estivesse a realizar uma das funções essenciais que Orwell atribuía ao Big Brother, que era tirar todos os anos algumas palavras de circulação, porque sabia que é mais fácil controlar pessoas cujo vocabulário é restrito e que, por isso, tem dificuldades em expressar-se com clareza e riqueza e, em consequência, dominam menos o mundo em que vivem. O incremento de formas de expressão quase guturais como os SMS e o Twitter, apenas dá expressão a um problema mais de fundo que é desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura, e de um universo mediático muito pobre e estereotipado. Salva-nos o senhor Vice-Primeiro Ministro Portas que anda para aí a dizer que as “exportações estão a bombar”, convencido que ninguém o acha ridículo no seu afã propagandístico. Viva o Big Brother!
Tudo isto vem a propósito da palavra que mais me veio à cabeça – bem sei que uma cabeça muito deformada pelo “ressabiamento” por este governo não me ter dado um cargo qualquer – quando ouvi o debate parlamentar com o Primeiro-ministro na sexta-feira passada. Como ele está lampeiro com a verdade! Lampeiro é a palavra do dia.
Lampeiros com a verdade, neste governo e no anterior, há muitos. Sócrates é sempre o primeiro exemplo, mas Maria Luís Albuquerque partilha com ele a mesma desenvoltura na inverdade, como se diz na Terra dos Eufemismos. E agora Passos deu um curso completo dentro da nova tese de que tudo que se diz que ele disse é um mito urbano. Não existiu. Antes, no tempo do outro, era a ”narrativa”, agora é o “mito urbano”.
Aconselhar os portugueses a emigrar? Nunca, jamais em tempo algum. Bom, talvez tenha dito aos professores, mas os professores não são portugueses inteiros. Bom, talvez tenha dito algo de parecido, mas uma coisa é ser parecido, outra é ser igual. Igual era se eu dissesse “emigrai e multiplicai-vos” e eu não disse isso. Nem ninguém no “meu governo”. Alexandre Mestre era membro do Governo? Parece que sim, secretário de Estado do Desporto e disse: "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras". Como “sair da sua zona de conforto” é uma das frases preferidas do Primeiro-ministro, e a “zona de conforto” é uma coisa maléfica e preguiçosa, vão-se embora depressa. E Relvas, o seu alter-ego e importante dirigente partidário do PSD de 2015, então ministro, não esteve com meias medidas: “é extraordinariamente positivo” “encontrar [oportunidades] fora do seu país” e ainda por cima, “pode fortalecer a sua formação”. Resumindo e concluindo: “Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente importante". Parece um coro grego de lampeiros.

Continuemos. A crise não atingiu os mais pobres porque “os portugueses com rendimentos mais baixos não foram objecto de cortes”, disse, lampeiro, Passos Coelho. Estou a ouvir bem? Sim, estou. Contestado pela mentirosa afirmação, ele continua a explicar que os cortes no RSI foram apenas cortes na “condição de acesso ao RSI” e um combate à fraude. A saúde? Está de vento em popa, e quem o contraria é o “socialista” que dirige um “observatório” qualquer. 
Sobre os cortes nos subsídios de desemprego e no complemento solidário de idosos, nem uma palavra, mas são certamente justas medidas para levarem os desempregados e os velhos a saírem da sua “zona de conforto”. Impostos? O IVA não foi aumentado em Portugal, disse Passos Coelho com firmeza. Bom, houve alterações no cabaz de produtos e serviços, mas o IVA, essa coisa conceptual e abstracta, permaneceu sem mudança, foi apenas uma parte. Então a restauração anda toda ao engano, o IVA não aumentou? E na luz, foi um erro da EDP e dos chineses? Lampeiro.

sábado, 5 de outubro de 2013

Pacheco Pereira: Há uma grande derrota nacional do PSD e da governação

Pacheco Pereira também ganhou no Porto, onde um genuíno social-democrata se reconhece na candidatura de Rui Moreira (desafiando a porem-lhe um processo em cima). 

Não percebe como a direcção do PSD, com a linguagem política que tem para o país, apoiou um candidato que ofereceu tudo o possível e imaginário.

Há uma grande derrota nacional do PSD e da governação, em particular nas áreas urbanas. O PSD, desde o tempo de Sócrates, acantonou-se nas autarquias e perdeu muita da dimensão nacional. 

A tentativa de purga é a linguagem que conhecem e a antecipação do congresso pode resultar numa coisa albanesa, criando condições de conflitualidade interna que não são necessariamente por boas razões. O Menezes é vingativo e a tentativa de atribuir a responsabilidade a Jorge Moreira da Silva é típica. 

Há também uma derrota da direcção do partido, dos homens de mão ligados à direcção do partido.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pacheco Pereira: Metidos num sarilho - a raíz da questão foi um erro do PR

As pessoas não têm a consciência do sarilho em que estamos metidos, uma tempestade perfeita. O governo está claramente a encontrar um discurso justificativo, para encontrar um bode expiatório.
A raíz da questão é um erro do PR, que devia ter convocado eleições. A "crise Portas" é o factor que desencadeia a tempestade perfeita; a partir desse momento, o que o governo considerava ter por adquirido, a credibilidade, deixou de existir. Hoje, são 2 governos, conduzindo cada um um discurso próprio.
Estamos claramente a caminho de um segundo resgate e o discurso do PM resulta de saber que existe a grande possibilidade de ele existir. 
O PR está de novo a tentar remendar o que não é remendável. Quanto mais tarde este governo cair, pior para o país e com custo mais elevado.
Os 5% de Seguro não têm importância nenhuma, mas os 4,5 de Portas têm: no mesmo dia em que falou disso, o PM fala de forma diferente.

Questiona (sobre a decisão do TC), desde quando é que a facilitação dos despedimentos é a questão central da crise que atravessamos; não se pode dizer que o nosso modelo não assenta em salários baixos e mão de obra não qualificada e ao mesmo tempo criticar o TC por pôr algumas dificuldades aos despedimentos absolutamente subjectivos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quadratura - Pacheco Pereira: O Primeiro-Ministro não é Primeiro-Ministro coisa nenhuma

A forma como isto se está a discutir é ridícula. Não acredita em nada do que nos dizem. A tradição de mentira é tão grande que não consegue discutir com base nas afirmações dos governantes.
O governo está a dar recados aos jornais, a dizer que (a negociação) está a ser muito difícil. O vice PM está a querer salvar a sua pele e precisa de um sucesso, sendo essa a única lógica e racionalidade da sua actuação. O PM não é PM coisa nenhuma, não há um governo coerente, os CM não decidem nada de relevante para a vida das pessoas.
Não sabe se é a troika que está a colocar dificuldades ou se já há um acordo (com os 4,5%) e isto é uma rábula. O que sabe é que o governo teve sempre o mesmo discurso de que era necessário controlar o défice e acredita que o PM não deixaria de ficar feliz se o vice PM tiver um mau resultado.

Os recados são sempre destinados a deixar a ideia de que o governo se não faz é porque não o deixam, está mais preocupado com o seu marketing.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Quadratura - Pacheco Pereira - O comunicado do Conselho de Ministro é um insulto à inteligência

Sente-se mal com o país. Estamos a passar uma fase má, por apatia ou insensibilidade (também de jornalistas e comentadores).

As pessoas não estão a gostar do que estão a ver, que lhes é apresentado como inevitável e que é resultado de uma política que falhou. Grande parte dos efeitos foram provocados pela política do próprio governo, não se podendo atribuir qualquer espécie de mérito a esta governação. Há muita gente que está a ganhar muito dinheiro com esta crise, no sector financeiro e económico, em certos sectores da sociedade.

Temos que pedir aos nossos governantes que nos expliquem porque é que apesar de nos ter sido dito que não era preciso mais, foi preciso mais. O peso das despesas sociais são em grande parte resultado das políticas deste governo.

O comunicado do Conselho de Ministro de hoje é um insulto à inteligência de qualquer pessoa, nada daquilo é para requalificar ninguém.

Esta experiência de engenharia utópica vai deixar um país muito pior, sob permanente necessidade de assistência financeira e como uma zona medíocre e atrasada da Europa, é o que este governo está a fazer

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Pacheco Pereira (PSD) - Uma das heranças deste Governo é a divisão dos portugueses

Só há democracia quando há o primado da lei. Não tem sentido haver conflito entre poder executivo e judicial; as palavras do PM são um claro confronto do poder executivo que não admite ser limitado pela lei e configuram uma deriva pouco democrática. A ideia de que a Constituição fica suspensa e o poder executivo pode impor o que quiser, por um estado de necessidade financeira, não existe do ponto de vista constitucional.


Uma das heranças que este governo e esta experiência governativa vai deixar é a divisão dos portugueses e a ideia de que há contratos que valem (PPP's, swaps) e contratos que podem ser quebrados, criando uma situação de enorme injustiça. 

Ao contrário do que diz a narrativa propagandista do governo, o conceito de ajustamento das empresas (à economia) não se aplica às famílias, que não são empresas, nem às funções do Estado. A ideia de que as famílias fizeram o seu ajustamento é uma treta: empobreceram, como situação de facto e não por escolha.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pacheco Pereira: "A crise permanece idêntica...as eleições já estão em cima da mesa"

Tudo como dantes:
  1.  O falhanço dos primeiros dois anos, o que está expresso na carta de Gaspar.
  2. Permanece uma incompatibilidade de fundo entre política de rigor e política de crescimento, estando desequilibradas como estão.
  3. As eleições já estão em cima da mesa. Quer Passos, quer Portas, já estão a pensar em eleições; as pressões eleitorais são parte importante do discurso do crescimento.
  4. O pós-troika não significa qualquer alteração profunda para a vida portuguesa: a tentativa do PR em meter o PS no acordo tem muito a ver com a circunstância de que a política não pode mudar.
  5. Há uma ferida neste governo que não está resolvida: Portas está completamente fragilizado (e sabe-o) e quando se dão muitos poderes a alguém que o está, a primeira tentação é tentar usá-los para diminuir a sua fragilidade; se isso tiver resultados o conflito é com o PM e o PSD e só não há conflito se Portas falhar.
A natureza deste governo é estruturalmente tão instável que pode cair de um momento para o outro, mas também reconhece que estão de tal maneira numa situação de sobrevivência extrema que são capazes de engolir tudo.

Há um equívoco nos elogios a Pires de Lima, de que um bom gestor é necessariamente um bom ministro, sendo preciso moderar esta ideia.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Pacheco Pereira: É verdade que o PR conseguiu surpreender


É verdade que o PR conseguiu surpreender. O problema de fundo é que não estamos em condições de regressar aos mercados, o que o PR e a troika sabem; a questão é quererem garantir que haja um acordo estável para que o programa seja cumprido em mais do que uma legislatura. 
A condição do PS para qualquer espécie de entendimento tem que ser outra que não seja  a manutenção do governo como ele está. A posição do PR, ainda ambígua, é no sentido de fazer um entendimento a 3 já, e do PS poder ter condições para assiná-lo com a alternativa de lhe ser dado eleições em Junho de 2014. 
Como os credores sabem que eleições antecipadas são inevitáveis, substitui-se o novo resgate por um programa cautelar, que só faz sentido se o PS assinar.
O PR também se colocou numa posição em que pode acusar os partidos se não chegarem a um acordo, num passa-culpas. 
O que surpreende é que a solução (proposta pelo governo) é recusada, e desse ponto de vista a crise política não está resolvida.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Pacheco Pereira: o que é criminoso na gestão do PR


As peripécias são relativamente pouco interessantes, o pano de fundo desta crise é que é interessante: a transição, em parte por razões eleitorais e em parte pelo desastre desta política, das "finanças" para o "crescimento". 
A razão porque Gaspar se afasta é porque reconhece o falhanço da política e porque o PM começou a oscilar entre as finanças e o discurso do crescimento. 
Portas vê um PM que não está verdadeiramente nem num lado nem no outro e viu isso como pretexto para não apresentar a reforma do Estado e para não continuar associado com aquilo que vai ser a continuação do desastre. O que se vê no governo são as ruínas do período das finanças e uma confusão monumental do período do desenvolvimento.
A troika e os mercados querem um acordo entre os 3 principais partidos que suporte tudo, até eleições, e permita dar uma continuidade natural. O que é criminoso na gestão do PR e na maneira como Passos e Portas desenvolvem esta crise, é que deviam ter garantido uma solução, que pode passar por um governo de gestão (que até pode ser este), que comprometesse um partido como o PS, perante a hipótese de eleições antecipadas.
O argumento contra as eleições antecipadas começa a aproximar-se perigosamente de um argumento contra eleições, "anti-económicas", que alguma direita tem. A questão das eleições antecipadas tem que ser associada a um acordo prévio de como se vai viver no período até às eleições; para ser credível tem de envolver o PS, que se quer eleições não pode desligar-se do período anterior a elas. E quem provocou eleições antecipadas foram Passos e Portas, não se tenham dúvidas sobre isso. São um grande risco político e de governabilidade mas a situação actual é um risco maior. Não há condições para se evitarem eleições, sendo preferível que se prepare bem esse cenário

sábado, 29 de junho de 2013

Pacheco Pereira - "...Interessados na "massa falida" ficaram com tudo"

Se se tratasse apenas (dos membros do governo serem) administradores de massa falida, a coisa seria diferente; o problema não é esse: eles pensavam que conseguiam transformar a "empresa" numa radiosa empresa tecnologicamente desenvolvida, achando que o fariam em 2 anos a partir de um programa político ideológico; e menosprezaram uma série de factores que temos que ter em conta, e havendo uma parte de interessados na "massa falida" que ficaram com tudo.

A economia e o modelo social europeu não voltam a ser o que eram, nisso está de acordo, mas esquecemo-nos que muitas das coisas que aconteceram tiveram origem numa crise financeira e que se tomaram decisões europeias erradas, defendendo sectores arcaicos e abandonando a produtividade ou a investigação. as mudanças necessárias 8no modelo social europeu) têm que ser introduzidas com períodos de transição, com cuidado para que os elementos de coesão não sejam perdidos.

O que falha em Portugal, é que (para este governo) o que consideram danos colaterais é o fundamental, desprezando os factores económico-sociais, prescindindo de fazer negociação. A política faz-se para quem é vivo, não para se ser usado como ratos de laboratório

sexta-feira, 21 de junho de 2013

SIC - Pacheco Pereira: "Trata-se de um governo sitiado e profundamente dividido "

Subsídios - Há uma linha clara de confronto, uma afirmação de autoridade do governo. Trata-se de um governo sitiado e profundamente dividido (havendo um partido, o CDS, que está no governo e conduz uma acção política como se não estivesse); a tendência para responder a essa situação é com actos de autoridade, num claro confronto com a lei, com as instituições, com as pessoas comuns.

Os efeitos económicos e financeiros da decisão do TC é suposto estarem vertidos no rectificativo, não havendo razão nenhuma para não serem pagos os subsídios; e o TC tomou uma decisão que está associada a um subsídio de férias, que é suposto ser pago. A reacção de agressividade do governo é má para a democracia.
A decisão do PR enfraquece a sua autoridade; várias vezes no passado respondeu torto a ser pressionado e desta vez foi pressionável. No plano político, está cada vez mais a comprometer-se com o governo, não podendo repetir o seu discurso.