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domingo, 2 de agosto de 2015

(Expresso - Opinião Sobre a CGD) "A Caixa de pão duro"

Pedro Santos Guerreiro
A Caixa de pão duro

Vou repetir-me. Não era preciso esperar quatro anos para criticar os resultados da gestão da Caixa. Não era preciso esperar sequer quatro horas. Aquela equipa anunciada em julho de 2011 por este Governo era suficientemente má para antever o que aconteceria. Faltava experiência de banca comercial na equipa e, sobretudo, aquele era um conjunto de escolhas sem pés nem cabeça. Escrevi-o no próprio dia. “A administração da Caixa é uma combinação, explosiva e imprudente, de cabeças de cartaz.”
Sim, vou repetir-me. Escrevi-o aqui em novembro: “A Caixa apresenta resultados medíocres”, com uma rentabilidade sobre os depósitos de cerca de 0,1%, pelo que “se a gestão não muda a Caixa é preciso mudar a gestão”. O primeiro-ministro decidiu dizê-lo agora de outra forma, na Redação Aberta do “Negócios”: que a Caixa deveria estar a gerar resultados da sua atividade suficientes para devolver o capital ao Estado.
A Caixa teve injeções de capital monstruosas nos últimos anos. Vendeu os seguros, os hospitais e participações empresariais
Vou ainda repetir-me mais uma vez: o melhor que esta administração fez foi, mais do que limpar balanços, limpar o ar. Depois de anos de gestão socialista e instrumentalizadora, que deixaram um legado de maus créditos e de créditos maus, e de negócios duvidosos de que vamos ainda conhecendo o lastro, a Caixa Geral de Depósitos hoje não é uma casa de santos mas já não é o antro de comércio de favores que soterrava prejuízos para os anos vindouros. 
E isso tem um valor enorme. Mas não chega. Porque não chega ser sério para ser bom gestor. E aquela equipa não é nem nunca foi uma equipa, mas um conjunto de administradores que agem em subgrupos ou individualmente. Nem o melhor administrador do mundo consegue administrar sozinho. E ficará sempre por saber como é que o PSD mais liberal de sempre, em que pelo menos três ideólogos — Passos Coelho, Eduardo Catroga e António Borges — tinham pensamento tão vincado e tão público sobre a Caixa, escolheu uma administração talhada para falhar, penalizando inclusive os bons gestores escolhidos, porque não há bom vinho que resista a golpes de vinagre. A Caixa teve injeções de capital monstruosas nos últimos anos. Vendeu os seguros, os hospitais e participações empresariais. E se é o único banco que ainda não devolveu qualquer dinheiro de ajudas do Estado, é porque é incapaz de gerar lucros em monta suficiente.

É por isso que a esquerda questiona agora se o que Passos Coelho na verdade quer é privatizar a Caixa, pensamento que defendeu antes de ser primeiro-ministro e depois congelou. É possível que sim, até porque isso seria coerente com o seu pensamento liberal contra a presença do Estado na economia. E seria um tema lancinante para a campanha eleitoral que se avizinha. Mas talvez a resposta seja mais óbvia: Passos está a pressionar a administração da Caixa a ser consequente. Ou na entrada de lucros. Ou na saída dos administradores. Talvez pelos seus próprios pés. Mas o erro inicial foi de uma só pessoa: de Passos, que deixou que a seleção da administração fosse um plebiscito de quem o rodeava. A perversão é completa: o anátema não é as empresas do Estado serem mal geridas, é terem um mau acionista, que interfere ou cede a interferências, que define mal o mandato (que neste caso era o de auxiliar a economia, não o de gerar lucros) e que, na altura da avaliação, a faz pública ou humilhantemente.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

(Exp) "O que começa em “F” e acaba em “ões”? – e mais meia dúzia de adivinhas"

"Pergunta para queijo #1: O que é que alivia Cavaco, contraria Marcelo, vence Marques Mendes, dá pressa a Passos e levanta críticas de António Costa?
É a privatização da TAP.
A transportadora aérea está prometida ao consórcio de Humberto Pedrosa e David Neeleman, mas o contrato que a promete ainda não é público - porque não está ainda assinado. Essa será a razão, aliás, pela qual Neeleman ainda não deu um ar da sua graça. Foi o único: o governo já explicou porque fez a escolha, Humberto Pedrosa já mostrou orgulho por ter sido escolhido: “Eu sou o patrão de que a TAP precisa”, disse ao Expresso.
Enquanto não se sabe o que todos querem saber, vão-se sabendo pormenores pelo que os jornalistas conseguem saber. Depois de terem sido explicadas as contas dos 354 milhões que são 10 milhões para o Estado, contra avaliações da empresa de menos 274 e 512 milhões, e de se saber quando entra o dinheiro (até fim de 2016) e quando entram os aviões (até 2025), a TVI revelou ontem que o consórcio quer vender depressa aviões da TAP para encaixar 100 milhões de euros e aliviar a tesouraria. A notícia faz hoje a manchete do Jornal de Notícias, que também teve acesso à proposta e a desnovela.

Pergunta para queijo #2: o que é que o Estado Português está a vender e o Estado brasileiro está a ajudar a comprar?
É a TAP.
Na proposta divulgada pela TVI e pelo JN, fica claro que a reestruturação do passivo da TAP envolve o Estado Português na negociação, visando o alongamento de prazos e o atraso dos reembolsos. Mas se o Estado Português está ativamente na operação, outro Estado está passivamente nela.
Confirma-se que o Estado brasileiro, como o Expresso já tinha noticiado há um mês, apoia mesmo David Neeleman, através do poderoso banco estatal BNDES, que por acaso está envolvido no maior escândalo de sempre de corrupção no Brasil, o “Lava-Jato”. Faz parte da estratégia estatal de Dilma (o que já acontecia antes) apoiar a internacionalização de empresas brasileiras e também aqui será o caso. A proposta deixa-o claro: não é só dinheiro, é orientação. Ora leia:
“Estamos extremamente satisfeitos com o elevado apoio, incentivo e orientação que estamos a receber ao mais alto nível do Estado brasileiro”.
Com apoios, entrada de capital e uma alteração de estratégia que passa por abandonar as rotas para Oriente e virar tudo para Ocidente (o que leva a abandonar os aviões A350 encomendados em prol de A330 de nova geração), o consórcio prevê transformar os capitais próprios de mais 500 milhões negativos atuais para 2,3 mil milhões em 2020. Bem diz o editorial do Económico: o diabo está nos detalhes. E um deles é Fernando Pinto: fica na empresa, confirma o Negócios.
No meio disto, ficámos a saber pelo Público que a TAP abriu um inquérito ao piloto que organizou greve de maio. O alegado mentor da paralisação, agora suspenso, é Paulo Lino Rodrigues.

Pergunta para queijo #3: o que transporta pessoas e o governo quer entregar depressa a privados? Sim, é a TAP, mas é também a Carris, o Metro de Lisboa e a Transtejo/Soflusa.
Dos 15 interessados que levantaram o caderno de encargos para a concessão da Transportes de Lisboa (“holding” que agrega os três operadores públicos da capital), é esperado que seis façam propostas vinculativas, noticia o DN. A abertura de propostas será feita esta manhã. Fique atento ao site do Expresso.

Pergunta para queijo #4: que dois homens estão em todas as notícias que leu até aqui, mesmo se não nomeados? 
Sérgio Monteiro e Humberto Pedrosa.

O secretário de Estado dos transportes está liderar as últimas privatizações e concessões que o governo está a fazer até às eleições. E Humberto Pedrosa não só está no consórcio que venceu a TAP como deverá apresentar uma proposta hoje para a Transportes de Lisboa. Conheça aqui o perfil do 15º homem mais rico de Portugal." (Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Curto)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

(Opinião) PS: em vez de cofres cheios, bolsos cheios

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 21/04/2015)
Queriam uma política de esquerda, anti-troika e centrada nos trabalhadores? Ei-la, apresentada por um grupo de economistas no Largo do Rato. Nunca o PS foi tão diferente do PSD. Depois disto, António Costa e Passos Coelho nunca poderão estar no mesmo governo.
Um grupo de economistas ligados ao PS acaba de fazer um conjunto de propostas económicas que é fácil de perceber: é o contrário da política económica atual. Propõe dar a volta ao mundo no sentido oposto ao de Passos/troika para chegar aos mesmos antípodas: prosperidade com equilíbrio das contas públicas.
Este texto é uma primeira análise ao conjunto de medidas, não se debruça sobre cada medida em si, exercício que faremos de seguida mas que exige mais tempo, estudo e contraditório. Mas o que foi apresentado por Mário Centeno tem uma enorme vantagem: é claro e é diferente. Vamos deixar de discutir a frase de Costa ou o caso de Passos, vamos poder falar de políticas públicas. E vamos ter material para analisar muito além do que PS e PSD dirão um do outro: o PSD dirá que o PS voltou ao delírio que nos levará de novo ao descalabro; o PS dirá que o PSD nos trouxe a um beco sem saída de empobrecimento e desigualdade.
Os economistas caucionados pelo PS não propõem apenas acelerar o fim da austeridade, propõem acabar com a política que a troika impôs a Portugal e que o governo de Passos Coelho acolheu, por nela acreditar. Como escrevia Helena Garrido ontem no Negócios, para os economistas é agora fácil perceber a diferença entre PSD e PS: o PSD tem uma política do lado da oferta (promover a concorrência de modo a aumentar a competividade das empresas), o PS tem uma política do lado da procura (aumentar o rendimento disponível). Mas as diferenças vão muito além disso.
Onde a troika quis um choque de competitividade, os economistas do PS querem um choque de rendimento.
Onde a política do governo favoreceu as empresas para fomentar a competitividade, a política dos economistas do PS favorece os trabalhadores por razões sociais e de rendimento.
Onde o governo baixou o IRC, os economistas do PS baixam o IRS.
Onde o governo aumentou o IVA para a restauração, o PS aumenta o imposto sucessório.
Onde Passos Coelho quis o equilíbrio das contas públicas pela redução da despesa do Estado, cortando salários públicos e pensões, os economistas do PS defendem a devolução mais acelerada das pensões e dos ordenados do Estado para aumentar o rendimento.
Onde o governo quis a desvalorização interna, o PS quer a revalorização salarial.
Onde a troika quis a redução dos salários na economia (com descida da remuneração das horas horas extra e dos feriados, e com os salários dos novos postos de trabalho mais baixos que os anteriores), o PS quer baixar a TSU para os trabalhadores (aumentando o seu rendimento disponível) e também para as empresas (baixando o custos totais de trabalho).
Onde a troika cortou apoios sociais para poupar e por discordar dos “custos de ociosidade” que a subsidiação provoca, os economistas do PS querem dar um complemento salarial pago pelo Estado aos trabalhadores com salários mais baixos.
Onde o governo quis agilizar o mercado de trabalho e baixar os custos de despedimento para que as empresas pudessem reestruturar-se sem custos que o impossibilitassem, os economistas do PS querem aumentar o valor das indemnizações para dar mais proteção a quem perde o salário.
Onde o governo apostou tudo na competitividade, para atrair o investimento empresarial (estrangeiro, tendo em conta a descapitalização) e um modelo económico assente em empresas exportadoras nos sectores transacionáveis, os economistas do PS reforçam o rendimento das famílias para promover a procura interna e expandir a economia.
A diferença entre estas duas políticas é, diria Vítor Gaspar, enorme. Com o PSD, o Estado “encolhe”. Com o PS, o Estado vai gastar mais do que hoje mas vai também ter mais receitas porque o PIB cresce mais.
Embora se comprometa com metas de dívida e défice orçamental, António Costa acaba de perder a passadeira vermelha para entrar em quatro cidades: Berlim, Bruxelas, Frankfurt e Washington. A troika deve estar aos murros na parede depois de ouvir isto. O governo deve estar preocupado. Porque estas propostas do PS são também eleitoralistas, o que já levou o PSD a assumir um discurso pela negativa. E esse discurso assenta sobretudo no risco colocado sobre as contas públicas.
Esse risco existe. A proposta do PS garante que atinge o equilíbrio das contas públicas de uma maneira completamente diferente. Vejamos: o défice orçamental é uma fração, em que a diferença entre receitas e custos do Estado é dividida pelo PIB. Com a proposta do PS, os custos do Estado disparam. Mas o PIB sobe. E como o PIB sobe, as receitas também sobem (com mais PIB há mais transações, logo cobra-se mais IVA; há mais salários, logo há mais IRS; há menos desempregados, logo há mais gente a descontar e menos gente a receber subsídios; etc.)
Nos próximos dias iremos analisar, proposta a proposta, os riscos e as alternativas propostas pelos economistas liderados por Mário Centeno, um economista muito respeitado no Banco de Portugal – mas que é muito menos de esquerda do que muitos socialistas pensam (o contrato único de trabalho, por exemplo, não é fácil de passar no PS). Mas hoje já podemos analisar isto: o PS e o PSD defendem o contrário um do outro. O “não há alternativa” já não existe para os eleitores. E isso coloca a discussão política num nível completamente diferente.
Onde o PSD defende cofres cheios, o PS propõe bolsos cheios. (Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 21/04/2015)

quinta-feira, 5 de março de 2015

BES - "A galeria dos horrores - ou um Salgado ruinoso"


(...) O BES usou o Panamá, a Suíça e a Líbia para financiar o GES à revelia do Banco de Portugal, contra credores do grupo e clientes do banco. Ricardo Salgado garantiu empréstimos à Venezuela sem que ninguém soubesse - nem sequer a sua própria administração. Houve esquemas "de financiamento fraudulento" através de obrigações nos últimos 15 dias. 
Havia administradores do BES a movimentar como queriam contas bancárias que supostamente serviam para pagar papel comercial. Suspeita-se que parte do dinheiro foi usado para pagar a alguns credores, favorecendo-os em detrimento de outros e em violação das ordens do supervisor. 
O BES emprestava dinheiro a acionistas. O Banco de Portugal foi ostensivamente ignorado. Houve administradores do BES que, em conflito de interesses, não respeitavam as regras internas e não enviavam informação para o departamento de controlo e risco. E por aí fora: basta ler as notícias relacionadas pelo Expresso sobre o documento. (...)

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