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domingo, 20 de dezembro de 2015
terça-feira, 10 de novembro de 2015
José Sócrates - o XVIII Governo (2009-11)
Foi no final de junho de 2011 que José Sócrates convidou os membros do seu Governo para um último encontro que assinalou o final de funções. A posse tinha sido em outubro de 2009. Muito mudou desde então. Fica a foto de família.
![]() |
| (foto de Ricardo Oliveira) |
Membros do Governo - http://www.portugal.gov.pt/pt/o-governo/arquivo-historico/governos-constitucionais/gc18/composicao.aspx
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
JSócarates (carta) - "Preso 9 meses para investigar ... sem factos conhecidos"
"Ao fim
destes longos nove (9) meses, creio que é tempo de todos tirarem uma conclusão:
fui preso sem que existissem quaisquer provas contra mim. A interpretação mais
benigna, embora ainda assim intolerável, é a de que me prenderam "para
investigar". Mas há outra. À medida que o tempo passa cresce a legítima
suspeita de que este processo tem como verdadeira motivação condicionar as
próximas eleições e impedir a vitória do PS. Acontece que isso não compete à
justiça, mas à política", lê-se na carta, a publicar na íntegra na edição
do JN de amanhã.
Pela primeira
vez, afirmando que "a Justiça cometeu mesmo neste caso um erro
monstruoso", o ex-primeiro-ministro refere-se com mais detalhe aos
indícios de corrupção e de fraude fiscal e branqueamento de capitais que lhe
são imputados pelo Ministério Público. Classifica o processo como
"saltitão", dizendo que a investigação "já 'acreditou' em tudo e
no seu contrário", passando "de uma teoria para a outra cada vez que
a anterior esbarra contra a verdade".
Em concreto,
critica ser suspeito de corrupção praticada alternativamente em Portugal,
Angola, Venezuela, "talvez na Argélia" e "de novo em Portugal
mas no Algarve (oscilando aqui entre o PROTAL, umas operações urbanísticas nunca
identificadas do Empreendimento de Vale de Lobo e um empréstimo concedido pela Caixa
Geral de Depósitos, a que sou totalmente alheio) e, ao que parece, está agora
em trânsito para o Brasil".
"Já
'acreditaram' também que ela aconteceu nas PPP rodoviárias, na Parque Escolar,
no T.G.V. e até no Aeroporto que nunca foi feito, embora sem nunca esclarecer
com que intervenção minha nem indicar em concreto o acto que consideram
ilícito. Finalmente e sempre segundo a 'fezada' da investigação, o 'agente
corruptor' começou por ser o conjunto das empresas do Engº Carlos Santos Silva,
a seguir foi o Grupo Lena, mas evoluiu depois, sem pestanejar, para promotores
turísticos e imobiliários com interesses no Algarve, explorando agora novas
oportunidades no filão do mercado brasileiro", enumera, concluindo que
"este enorme desnorte da investigação revela é que todo este processo foi,
desde o início, uma enorme precipitação e uma incrível leviandade".
Já quanto à propriedade
dos 23 milhões de euros detidos na Suíça em nome do alegado testa de ferro
Carlos Santos Silva, Sócrates volta a classificar a tese como
"absurda". E questiona a "lógica" da acusação, uma vez que,
se fosse verdadeira, estaria sempre sujeito à "boa-vontade e cooperação
para conseguir aceder, sempre por esquemas complicadíssimos" para aceder à
sua "fortuna".
Além disso,
acrescenta que, em caso de "fatalidade" ou "incapacidade"
de Santos Silva, não teria qualquer forma de aceder ao dinheiro, dado que não
consta como beneficiário das contas bancárias. "O dinheiro não é, nem
nunca foi meu".
O
ex-primeiro-ministro dá ainda um remoque ao Ministério Público por ter aberto
uma investigação ao negócio de compra e venda do seu andar, na Rua Braancamp,
Lisboa, a um advogado e ex-procurador do Paquistão. "A única razão parece
residir no facto desse apartamento ter sido meu. Já não se trata, apenas, do
respeito que deve às pessoas e aos seus direitos, mas de perder o respeito que
o Ministério Público deve a si próprio".
terça-feira, 30 de junho de 2015
(TSF/DN) José Sócrates - "A minha prisão visa tão-só impedir o PS de ganhar as próximas eleições"
Exclusivo
DN/TSF. O único arguido da Operação Marquês que continua em prisão preventiva
reafirma a narrativa de que é um preso político. Acusa o MP e o juiz de
instrução de quererem prejudicar o PS.
Depois de várias
tentativas desde o final de novembro de 2014, José Sócrates aceitou, no início
de junho, dar a primeira entrevista, ao DN e à TSF desde que entrou na cadeia
de Évora. O método, sujeito às normas dos serviços prisionais, passou por
várias etapas: duas visitas na prisão, envio das perguntas por escrito (19),
tendo as respostas seguido pela mesma via, através dos advogados. Por esta
razão não houve lugar a réplica ou contraditório, apesar de algumas das
afirmações o exigirem. O texto final foi manuscrito por José Sócrates,
datilografado fora da cadeia e regressou às suas mãos para sucessivas revisões.
A versão definitiva acabou por chegar ontem, ao fim da manhã. O
ex-primeiro-ministro recusou pronunciar-se sobre as questões relacionadas com os
"empréstimos" de Carlos Santos Silva e o seu estilo de vida, por as
considerar ofensivas e na linha dos interrogatórios do Ministério Público.
Porque é que decidiu
antecipar-se à audição com o juiz Carlos Alexandre sobre a alteração da sua
medida de coação? Não acha que pressionou a Justiça?
Que extraordinária pergunta!
Crê, sinceramente, que o mero exercício de um legítimo direito previsto na lei
possa ser visto como uma pressão sobre a justiça? Vejamos se percebo o
raciocínio e até onde ele nos leva: a ser assim, os direitos previstos na lei
podem ser exercidos, mas só devem sê-lo quando essa "justiça" de que
fala não se sentir pressionada, isto é, quando for "conveniente" para
a acusação. Ao que chegámos! Mas deixe-me chamar-lhe a atenção para um outro equívoco
que está implícito na sua pergunta. A Justiça não pode ser confundida com as
autoridades judiciárias. No direito penal há duas partes - o Estado e o
cidadão, a acusação e a defesa, e só a sua atuação em conjunto realiza a
Justiça. Porque Justiça - pelo menos a democrática - é muito mais do que o
Ministério Público (MP), ela é o processo justo, a lealdade processual, as
garantias de defesa - a Constituição. Assim, sim, poderemos falar de Justiça
sem necessidade de recorrer a aspas.
Compreende a posição do
Ministério Público divulgada na terça-feira dia 9 (de manter a prisão
preventiva), depois de ter promovido, três dias antes, a alteração da medida de
coação para prisão domiciliária com pulseira eletrónica?
Só a compreendo como
expressão de um ressentimento insensato, que deu origem a um conjunto de
ilegalidades de que já toda a gente se apercebeu, desde todos os setores da
opinião pública até à comunidade jurídica. Você repare que, com este episódio,
diversos advogados conhecidos pela sua experiência e sabedoria (estou a
lembrar-me especialmente do Dr. Paulo Sá e Cunha) abandonaram a sua tradicional
prudência e reserva e vieram explicar com toda a clareza porque a atuação do
Ministério Público e do Juiz de Instrução foi ilegal, ilegítima e insensata. Os
meus advogados, com a vantagem de conhecerem melhor o processo, irão impugnar
esta decisão e tudo ficará mais esclarecido ainda. Só espero que não só fique
esclarecida a ilegalidade como também as causas (o ressentimento, a raiar a
raiva, o amuo pueril, a vertigem da força) do extraordinário comportamento do
Ministério Público e do Juiz de Instrução.
Como é que comenta a
divulgação, nos últimos dias, da transcrição do seu interrogatório no DCIAP,
realizado a 27 de maio?
O aspeto que mais me
impressionou foi a desfaçatez de se lançar sobre os meus advogados a suspeita
da divulgação. Acontece que o Ministério Público sabe bem quem é o principal
suspeito do tráfico de informações do processo com a revista Sábado, que
pertence ao mesmo grupo do Correio da Manhã. Sabe-o através dos depoimentos,
entre os quais o meu, que foram prestados no primeiro inquérito sobre violação
de segredo de justiça aberto logo no início deste processo. Quanto ao mais, é a
paródia habitual em que se transformou o segredo de Justiça. As normas legais
que visavam proteger a investigação e o bom nome das pessoas - valores que o
sistema penal devia levar a sério - constituem, hoje, uma arma, ilegítima mas
poderosa, que alguns elementos do Ministério Público usam para perseguir, para
desacreditar, para caluniar.
Julgo que muitos têm
consciência do preço que o sistema judicial está a pagar por estes crimes. A
promiscuidade de alguns elementos judiciais com os tabloides - dá-me
informações, que eu digo bem de ti - corrói e corrompe o sistema. É um tumor
que alastra e cujas metástases afetam e contaminam o prestígio e a dignidade
das instituições judiciais.
Está há seis meses em prisão
preventiva. Que balanço faz do processo?
Seis meses de prisão
preventiva e sem acusação. Seis meses de uma violenta campanha de difamação
efetuada e dirigida pela acusação. Seis meses impedido de me defender. Seis
meses de ameaças e intimidação ("pessoas próximas ainda em
liberdade", julgo ser a linda expressão que usam). Seis meses de abuso, de
arbítrio e mentiras. Seis meses de caça ao homem. Ainda assim, não venceram.
Dirão, bem sei, que a lei
lhes permite um ano de prisão preventiva sem acusação. Mas nem sempre o que a
lei permite, a decência autoriza. Sejamos claros: num processo com óbvias
consequências políticas e sociais, em período pré-eleitoral; depois de deterem,
prenderem e caluniarem ao longo de seis meses, é muito revelador que não sejam
capazes de apresentar o que disseram adquirido desde início - afinal, nem
factos, nem provas, nem acusação!
Acompanhei, com curiosidade,
o caso, relatado nos jornais e nas televisões, de um nosso compatriota que
estava em Timor-Leste preso há seis meses sem acusação. Pude seguir - e
partilhar - a indignação geral: os jornalistas chocados, o governo preocupado e
até uma delegação de deputados protestou por tão evidente menosprezo dos
direitos individuais. É claro que não falta ao nosso país autoridade moral:
aqui, tais abusos seriam impensáveis e inadmissíveis. Bravo!
O Ministério Público
suspeita de corrupção. A imprensa tem falado da Parque Escolar, do TGV, de
concessões rodoviárias, das casas na Venezuela. E agora do empreendimento de
Vale do Lobo e de negócios de terrenos na OTA e em Alcochete relacionados com a
localização do novo aeroporto. Que provas é que lhe foram apresentadas?
Para a história do processo:
1 O acorde inicial - primeiro interrogatório.
Fui detido e preso sem que
ao longo de uns intermináveis seis meses me tivesse sido apresentado um único
indício - digo indício, já não falo de factos ou provas - de que tivesse
praticado o crime de corrupção. Esta situação é, em si, tão inacreditável e tão
reveladora da perseguição pessoal e política que motivou este inquérito, que
poucos a aceitaram como credível. Mas não se pode sustentar durante muito tempo
tamanho embuste. Cito o voto de vencido (em 4 de junho) do senhor desembargador
José Reis: "Sucede que, no caso, tal quadro se apresenta manifestamente
incompleto dada a total ausência de descrição de indícios factuais que
eventualmente possam integrar o crime de corrupção. Esta é a realidade nua e
crua." E prossegue:
"Debalde procuramos
indícios dessa matéria no requerimento e decisão ora recorrida (...) Ante a sua
inexistência partimos para a integral audição daquele interrogatório (...) E do
que ouvimos (incluindo os excertos de algumas das escutas telefónicas que o
Ministério Público entendeu serem relevantes passarem durante esse acto)
constatámos que em momento algum o recorrente foi confrontado com quaisquer
factos ou indícios concretos susceptíveis de integrar o crime de corrupção. E
seguramente não o foi porque (...) eles inexistem."
"Ora, a decisão em
crise, tal como a promoção que a origina não descreve um único indício factual
susceptível de integrar os crimes de corrupção."
"No fundo, este
tribunal fica sem saber o que, concretamente, com relevância criminal, se está
a investigar, pelo que não pode conceder o seu aval àquilo que desconhece. Ou
seja, se se ignorarem os indícios dos factos que se projectam demonstrar (...)
não há complexidade alguma em investigar o nada, o vazio."
Acreditam agora?
2 A fuga para a frente - segundo interrogatório.
Seis meses depois, a fuga
para a frente. Não tendo até aí apresentado nada, o procurador decide fazer
acusações, como se o facto de as fazer o dispensasse de apresentar os indícios
que as legitimam e os factos e as provas que as fundamentam. No 2.º
interrogatório, passam a imputar-me a intervenção em todos os contratos entre o
Estado e a empresa Lena - concessões rodoviárias, Parque Escolar, novo
aeroporto (?!), TGV e casas da Venezuela e fazem--no sem indicar quais
contratos, quais os indícios que legitimam as suspeitas, quais os factos que
autorizam a imputação. Perguntados, respondem com nada - silêncio embaraçado e
envergonhado. Com boas razões para ter vergonha.
Reafirmo: nunca, em nenhuma
circunstância, intervim na decisão de adjudicação destes concursos públicos.
Nunca dei a nenhum ministro ou membro do governo nenhuma orientação ou sugestão
de atuação sobre a decisão destes concursos. Estas acusações não têm um pingo
de verdade. São mentiras atrás de mentiras.
Talvez não haja melhor
exemplo deste irresponsável comportamento do que a disparatada imputação
segundo a qual a revisão do PROTAL, aprovada em 2007, foi decidida com o
intuito de beneficiar o empreendimento de Vale do Lobo. E faço notar que nada
disto foi perguntado, foi afirmado; não foi apresentado como suspeita, mas como
uma acusação direta e formal. Perguntado em que é que se baseava para fazer tão
grave acusação, o senhor procurador diz apenas que há uma "coincidência
temporal". Coincidência temporal, logo corrupção. Bravo procurador, que
não se deixa atrapalhar por saltos lógicos!
A verdade é que não tive
intervenção pessoal na revisão do PROTAL nem dei nenhuma orientação sobre tal
matéria a nenhum membro do governo. Esta revisão, que começou a ser elaborada
ainda durante o mandato de anteriores governos, foi aprovada em Conselho de
Ministros tal como foi proposta pelas várias equipas técnicas que a elaboraram.
Mais e definitivo: deste PROTAL não resultou nenhum aumento da área urbanizável
de Vale do Lobo, nem qualquer outra vantagem ou benefício para aquele
empreendimento (é, aliás, preciso não saber o que é um plano regional de
ordenamento para que tal ideia possa ocorrer). Tanto quanto sei, as últimas
construções autorizadas em Vale do Lobo foram-no por um despacho de dois
ministros feito em 1991 e um plano de pormenor aprovado em 1994. Eis os métodos
do Ministério Público em todo o esplendor: se não sabe, não procura primeiro
informar-se, perguntar, esclarecer-se; não - da ignorância parte-se logo para a
acusação e para o insulto travestido de "imputação". Não se procura a
verdade, mas o ataque, a perseguição pessoal. E acaba tudo nos jornais.
No início da Segunda Guerra
Mundial, o Estado-Maior do Exército holandês teve uma interessante e criativa
ideia: decidiu colocar, na linha da frente, espantalhos, a fingir de soldados
para, desta forma, parecerem serem muitos aos olhos do inimigo. O comportamento
do Ministério Público fez-me lembrar esta deliciosa história porque a tática é
a mesma: falsas e disparatadas acusações para parecerem muitas e, sendo muitas,
parecem verdadeiras. Mas não são, são apenas espantalhos. São só para fingir.
Todavia, a questão aqui é esta: o Ministério Público não tem o direito -
repito, não tem o direito - de fazer imputações sem apresentar os factos que as
justificam ou as provas que as fundamentam. Quando esquece este seu dever
elementar e assim procede não está a agir como acusador público mas como
difamador e como caluniador. E insultar e caluniar não são competências do
Ministério Público. Numa palavra, este comportamento do Ministério Público não
é sério.
Na terça-feira 9 de junho,
um comunicado da PGR confirmou, pela primeira vez, que está indiciado pela
prática do crime de "corrupção passiva para ato ilícito". Alguma vez
recebeu contrapartidas, ou tem conhecimento de elas terem sido pedidas por
Carlos Santos Silva, para a adjudicação de contratos, por exemplo, com o Grupo
Lena?
Rejeito, indignado, essas
acusações. Nunca, em nenhuma circunstância, intervim ou recebi contrapartidas
com o intuito de favorecer quem quer que fosse em concursos públicos.
Quanto à segunda parte da
sua pergunta - se é possível que o engenheiro Carlos Santos Silva as pedisse em
meu nome - respondo-lhe como respondi ao Ministério Público, que me fez,
curiosamente, a mesma pergunta. Sou amigo do engenheiro Carlos Santos Silva há
quarenta anos e conheço-o bem. Ele é uma pessoa honesta e decente que nunca
faria uma coisa dessas. Se o Ministério Público anda à procura de cenários
alternativos para a acusação, não me parece que por aí tenha sorte. O meu amigo
Carlos Santos Silva está preso só pelo facto de ser meu amigo e por me ter
querido ajudar quando eu precisei.
Que provas lhe foram
apresentadas sobre a existência de contas na Suíça, com dinheiro que
alegadamente terá usado?
Nenhuma prova, só acusações.
Como se acusar fosse, em si, uma prova. Mas não é. A imputação de que o
dinheiro dessas contas é meu é não só falsa como completamente estapafúrdia.
Desde logo, os dados enviados pelas autoridades suíças em resposta à carta
rogatória confirmam que o meu nome não consta em nenhum documento. Nem em
transferências nem em titularidade de qualquer tipo. Este importante facto tem
sido propositadamente escondido, sim escondido, pelo Ministério Público.
Mas há mais. Os titulares
das contas deste tipo na Suíça são obrigados por lei a declarar, no momento da
abertura da conta, os nomes de quem pode ter acesso final às contas em caso de
qualquer acidente que possa ocorrer ao primeiro titular - morte, incapacidade,
etc. Há, assim, uma obrigação de declaração inicial de uma espécie de último
beneficiário em caso de qualquer tragédia, nome ou nomes esses que não são
públicos e permanecem discretamente na ficha da conta. Ninguém, para além dessa
ou dessas pessoas, pode ter acesso ao dinheiro.
Ora, se a tese do Ministério
Público fosse correta - se o senhor engenheiro Carlos Santos Silva fosse meu
"testa-de-ferro" (ou "homem de palha", ou "cabeça de
turco", como a acusação gosta de lhe chamar nos romanceados relatos que
faz para os jornais), então seria necessariamente o meu nome que constaria como
beneficiário no caso de qualquer acidente que impedisse o titular de movimentar
as contas. E isso seria assim por uma boa razão: ninguém deixaria que uma
fortuna dessas permanecesse durante vários anos (desde, julgo eu, 2005) sem
meios de a reclamar no caso de qualquer desgraça pessoal acontecer ao titular.
A verdade é que não é o meu nome que consta de tal documento - que, como já
referi, teve de ser entregue ao banco logo na abertura da conta, há mais de dez
anos.
Eis, portanto, a implosão da
tese da acusação. Porque das duas uma - ou o engenheiro Carlos Santos Silva não
é meu "testa-de-ferro" ou, então, teria de ter não apenas um, mas
vários "testas-de-ferro" - todos os que, em caso de incapacidade do
titular, podiam ter acesso ao dinheiro. Para fantasia basta a primeira. Com a
segunda passamos ao delírio.
Numa resposta ao Tribunal da
Relação, o Ministério Público afirma que a sua acusação será feita
"seguramente não antes do final do ano". Como comenta? Parece-lhe
normal?
Julgo que o senhor
procurador perdeu qualquer sentido da sua responsabilidade. Quando me deteve e
prendeu assegurou que tinha contra mim um caso sólido e fundamentado. Não disse
a verdade. Passados seis meses, diz que "a prova está consolidada".
Tornou a não dizer a verdade. Finalmente, reconhece que nem daqui a seis meses
- isto é, um ano depois de me prender - conseguirá apresentar a acusação. Tal
é, resumidamente, o relato de tão odioso processo. Findos os primeiros seis
meses de prisão, o senhor procurador não tem provas para acusar. Nem as terá
daqui a mais seis meses. Eis a extraordinária confissão: quando deteve, fê-lo
sem motivo; quando prendeu, fê-lo sem provas. O que tenho a dizer perante esta
declaração é isto: estou preparado para reduzir a zero, a nada, qualquer
acusação que me queiram fazer. Seja agora, daqui a seis meses ou daqui a um
ano. No entanto, e para ser claro, o que é grave - muito grave - é que ao
prender sem provas e ao permitir a intensa campanha de difamação sobre mim e
sobre o anterior governo do PS, o senhor procurador autoriza a legítima
suspeita de que a minha prisão possa ter servido para condicionar as próximas
eleições legislativas. Deteve sem explicações, prendeu sem se justificar. Ao
fim de seis meses, diz que precisa de mais seis meses, para depois das
eleições. Tal é o lindo serviço que presta à Justiça - envolvê-la numa horrível
suspeita de instrumentalização política.
Já leu o livro Cercado, de
Fernando Esteves?
Oh, tenham dó, por favor!
Sabem o quanto me desagrada essa literatura de valets de chambre que observa a
história sempre à espera da oportunidade de narrar o detalhe indiscreto da vida
dos outros. Não, não li. E não é o facto de falar de mim que faz abrandar o
desprezo por tal género de livro.
Há, no entanto, algo
inovador nesta publicação que merece ser referido, até porque não nos obriga a
lê-la. Consiste na abertura de novos e promissores mercados para o comércio do
segredo de justiça. Já não se trata da venalidade implícita na troca de
informações em sigilo por notícias de jornais; agora, trata-se de ganhar
dinheiro transformando essas informações em livros. É sem dúvida mais
"chique".
Dizem-me, também, que o
autor não agradeceu como devia a quem o ajudou - àqueles que, tendo o processo
à sua guarda, permitiram todas as violações do segredo de justiça, sem as quais
esse livro não existiria. É uma ingratidão!
Como comenta as notícias de
que não terá escrito o seu livro?
Primeiro disseram que mandei
comprar o livro. Agora que nem sequer o escrevi. Amanhã teremos de ver o
mestrado. Tê-lo-ei concluído? E os exames? Terei copiado tudo? E, afinal,
alguma vez terei realmente frequentado SciencesPo?
Eis o resultado da
promiscuidade entre a justiça penal e os tabloides. Eis no que se transformou o
Ministério Público: um sinistro aparelho de produção das mentiras mais
escabrosas e destinadas às campanhas de assassinato de carácter dos seus alvos.
Vários procuradores, que se
pronunciaram no Facebook sobre a sua prisão, vão ser alvo de inquérito
disciplinar, apesar da oposição da procuradora-geral da República. Quer
comentar?
Bom, julgo que devemos ser
compreensivos com este episódio. Afinal os senhores magistrados perceberam bem
que não se estavam a pronunciar sobre um processo de justiça, mas sobre um
processo político. E, assim sendo, manifestaram-se como militantes políticos a
quem é deslocado pedir que considerem a presunção de inocência. Para o fanático
só existe a presunção de culpabilidade. Seria, creio eu, pedir demais que lhes
exigissem que se expressassem sem rancor, com racionalidade ou com
inteligência.
O mesmo esforço de
compreensão devemos ter com o comportamento da senhora procuradora--geral.
Nunca entenderemos as suas declarações se pensarmos que elas respeitam a
simples representação de uma instituição com especiais deveres com a letra da
Constituição. A senhora procuradora-geral pronunciou-se como "chefe de clã"
- defendeu os seus, com os pobres argumentos que arranjou.
O secretário-geral do PS
disse no Fórum TSF do dia 8 de junho que "o PS não pode substituir-se nem
à defesa, nem à acusação, nem ao juiz". Como é que comenta esta
declaração?
Tive, ao longo de todos
estes meses, a solidariedade sem falhas de todo o PS, dos seus militantes e dos
seus dirigentes. Nunca o PS me faltou, e muito menos me faltou agora. Quanto ao
resto, eu sei defender-me.
Mas não iludamos a questão
crítica neste processo. Lamento muito dizê-lo, mas, pelas abundantes razões que
expus ao longo desta entrevista, tenho a legítima suspeita de que a verdadeira
intenção da minha detenção abusiva e da minha prisão sem fundamento não foi
perseguir crime nenhum mas tão só impedir o PS de ganhar as próximas eleições
legislativas.
Sente-se atingido pela
declaração de António Costa quando este diz que "é preciso despoluir o
debate político" de casos como este?
Não esperem de mim, em
período pré-eleitoral, qualquer palavra que possa prejudicar a liderança do PS.
Até porque me ficaria mal.
Ainda se sente confortável
com o uso generalizado, por parte de responsáveis políticos que comentam o seu
caso, da expressão "à justiça o que é da justiça, à política o que é da
política"?
Como muitas vezes acontece, a
simplicidade das fórmulas políticas pode confundir mais do que esclarecer. É
muito frequente ser difícil distinguir o discurso da responsabilidade do da
covardia e da rendição. Em primeiro lugar não se trata de pôr em causa o
princípio da separação de poderes, mas defendê-lo. Em segundo lugar, o que está
em causa não é uma pressão política ilegítima sobre a Justiça, mas exatamente o
contrário: a fundada suspeita de pôr a justiça ao serviço de objetivos
políticos. Não encontro outra explicação para o arbítrio, o abuso e a
monstruosa injustiça de que fui vitima.
A política para si acabou?
Oh, pelo contrário. Isto
ainda agora começou.
quinta-feira, 11 de junho de 2015
(JN) Cristina Azevedo - "Sócrates teve coragem!"
A
verdade é simples e límpida como são as coisas simples: José Sócrates teve
coragem em recusar a alteração de uma medida de coação que, sob todos os
ângulos do seu bem-estar humano e pessoal, era mais confortável.
Ainda sem saber se será pronunciado e julgado, José Sócrates
apenas eleva a fasquia da sua defesa e se expõe mais à dureza dos efeitos de
uma eventual derrota nesta difícil averiguação legal por que passa. E nestas condições agir assim é ter coragem!
E isto é assim, independentemente do desfecho que todo o caso
venha a ter. O que, em minha opinião, torna triste, pouco inspirador e quase
cobarde o discurso público que a propósito nos invadiu.
Nunca a frase "à justiça o que é da justiça" e "à
política o que é da política" foi tão insipidamente usada. E até mal
usada. Porque afinal, que ato político maior pode haver do que o exercício
pleno da liberdade individual em nome de princípios e convicções que nos deviam
pôr a todos a refletir e a discutir.
Ou todos os portugueses se sentem confortáveis com um sistema
que pode prender até um ano para investigar, que pode deixar alegadamente mais
de seis meses o arguido sem ter conhecimento do processo? E, no entanto, só se ouvem declarações de piedosa inocuidade,
como se o tema fosse incolor, inodoro e pianíssimo.
Eu, por mim, acho que o tema dá pano para mangas e acho que o
ato corajoso de José Sócrates é uma boa deixa para a discussão. E acho também que poderíamos ganhar coletivamente se o
discutíssemos com propriedade.
Pena é que à direita e à esquerda, um discurso medroso e politicamente
correto nos desmobilize de uma cidadania ativa e responsável, que tenha opinião
e não tenha medo das palavras ou dos atos. E muito menos medo tenha de os
adjetivar!
terça-feira, 9 de junho de 2015
A declaração de José Sócrates
Ninguém sabe qual a decisão que o hoje o juiz vai tomar sobre a alteração às medidas de coação proposta pelo Ministério Público, nem como reagirá à interpretação que dela fez José Sócrates. Seja como for abriu-se um debate público diferente.
Declaração de José Sócrates
"A minha prisão constituiu uma enorme e cruel
injustiça. Seis meses sem acusação. Seis meses sem acesso aos autos. Seis meses
de um furiosa campanha mediática de denegrimento e de difamação, permitida, se não
dirigida, pelo Ministério Público. Seis meses de imputações falsas, absurdas e,
pior – infundamentadas, o que
significa que o Ministério Público não as poderia nem deveria fazer, por não
estarem sustentadas nem em indícios, nem em factos, nem em provas. Seis meses,
enfim, de arbítrio e de abuso.
Aqui chegados, que cada
um assuma as suas responsabilidades. A minha prisão foi uma violência exercida
injustamente contra mim, mas foi-o de forma unilateral – foi-me imposta. Esse acto contou sempre com o
meu protesto e o meu repúdio; nunca com o meu silêncio e muito menos com o meu
assentimento. Agora, o Ministério Público propõe prisão domiciliária com
vigilância electrónica, que continua a ser prisão, só que necessita do meu acordo.
Nunca, em consciência, poderia dá-lo.
Por outro lado, não posso
ignorar – nem pactuar – com aquilo que, hoje, para mim, está diante dos olhos:
a prisão preventiva usada para investigar, para despersonalizar, para quebrar, para
calar, para obter sabe-se lá que “confissões”. Também não ignoro
– nem pactuo – com a utilização da prisão
domiciliária com vigilância electrónica como instrumento de suavização,
destinado a corrigir erros de forma a parecer que nunca se cometeram. Estas
“meias-libertações” não têm outro objetivo que não seja disfarçar o erro
original e o sucessivo falhanço: depois de seis meses de prisão, nem factos,
nem provas, nem acusação.
Meditei longamente nesta
decisão, no que ela significa de sacrifício pessoal e, principalmente, no sacrifício
que representa para a minha família e para os meus amigos, que têm suportado
esta inacreditável situação com uma extraordinária coragem. Todavia, o critério
de decisão é simples – ela tem que estar de acordo com o respeito que devo a
mim próprio e com o respeito que devo aos cargos públicos que exerci. Nas
situações mais difíceis há sempre uma escolha. A minha é esta: digo não."
quarta-feira, 29 de abril de 2015
(SIC) Carta de resposta de José Sócrates a António Campos
"Afinal, que
crime concreto foi esse? Onde, quando e como é que eu o pratiquei?
Exatamente, que factos criminosos devo refutar, que provas devo desmentir?
Não sei, nem o Ministério Público (MP) sabe, até porque não cometi crime
algum!"
José Sócrates, preso preventivamente há seis meses no
Estabelecimento Prisional de Évora, defende-se de novo.
Numa carta enviada ao
fundador do PS António Campos e divulgada pela SIC, o ex-governante admite a
possibilidade de ser condenado no âmbito da Operação Marquês, mas, diz, de
forma injusta e ilegal:
"Sem provas e sem factos é possível manter
alguém preso e talvez até condenado". Na carta refere que o MP "tem
uma teoria, acredita nela e parece convencido de que não precisa de provar
nada para me manter preso ou até para obter uma condenação".
"António Campos, querido
amigo:
Desculpa
responder tão tarde à tua amável carta e só agora agradecer as tuas palavras,
tão amigas. Obrigado, também, por me teres enviado o artigo que a advogada do
meu amigo eng. Carlos Santos Silva escreveu na revista da Ordem dos Advogados.
Já tinha ouvido falar nele, mas só agora o li.
O
título é divertido: “vamos a um supor”. Todavia, o que não tem graça, mesmo
graça nenhuma, são as “supostas” denúncias: buscas ilegais, interrogatórios
ilegais, detenções ilegais. E, claro, tudo isto é suposto ter acontecido sob a
direcção e comando de um Procurador da República, com o assentimento de um
chamado “juiz das liberdades", que é suposto ser o protector das garantias
dos cidadãos face a qualquer tentativa de abuso.
Tanto
abuso não é, pelos vistos, excepcional e até parece que fez escola, a avaliar
pelas tímidas e raras – embora honrosas – reacções. Infelizmente, chegamos a um
tempo em que tanta indiferença perante estes abusos das autoridades parece
confirmar que as garantias do Estado de Direito já não são vistas como a fonte
legitimadora da justiça penal, mas como relíquias formais ultrapassadas. Na
verdade, o actual debate sobre política criminal está dominado por uma
perspectiva conservadora – mais propriamente, reaccionária – que pretende
soluções que passam por erodir os princípios tradicionais do direito penal
democrático em troca de “investigações mais eficazes”. É um erro histórico:
quem julga que pode trocar liberdade por segurança sempre se enganou
rotundamente. A segurança nunca foi conseguida sem liberdade. Sem uma ordem
penal baseada na liberdade, nos direitos, nas garantias processuais, ninguém está seguro. Nunca
pensei que regressássemos a um tempo em que é necessário lembrar que quando a
acção penal ignora as barreiras que o Estado de Direito lhe coloca, de
proporcionalidade, de garantias de processo, de formalismo, o resultado será
sempre o terrorismo de Estado. Mas claro, tudo isto é um “supor”.
Pedes-me
que te fale do andamento do meu processo mas dele só posso referir-te o que
para aí se diz nas televisões e jornais. E não é pouca coisa, o que me obriga a
ir por partes e a descrever os principais desenvolvimentos, de forma concisa,
em cinco pontos essenciais:
1. Cinco meses sem acusação
Ao
fim de cinco meses em prisão preventiva, o nosso estimável Ministério Público
não teve ainda tempo para me apresentar os factos e muito menos asprovas dos crimes que me imputa. Pelos
vistos, não acha que seja já tempo para apresentar a acusação – que era legítimo esperar fosse
rápida, dada não só a relevância do processo, mas também pelo facto de terem
justificado a minha prisão com pretensas provas “sólidas”,
"concludentes" e "indesmentíveis". Bem sei, falam de
indícios, mas como é que pode haver indícios "fortes" se não se sabe
de quê?? Afinal, que crime concreto foi esse? Onde, quando e como é que eu o
pratiquei? Exactamente, que factos criminosos devo refutar, que provas devo
desmentir? Não sei, nem o Ministério Público sabe, até porque não cometi crime
algum. A única diferença é que o Ministério Público não se importa com isso.
Tem
uma teoria, acredita nela e parece convencido de que não precisa de provar nada
para me manter preso ou até para obter uma condenação.
2. A violação do segredo de justiça
Não
tenho, aliás, dúvidas que as constantes “fugas”, criminosas e seletivas ao
segredo de justiça têm precisamente tudo a ver com o vazio deste processo –
visam disfarçar o vazio, criando na opinião pública uma convicção generalizada
de ter eu praticado os crimes que o Ministério Público me imputa, dispensando-se
o Senhor Procurador de acrescentar às generalidades factos e provas.
No
início deste processo ficámos a saber que se pode prender sem factos e sem
provas; agora sabemos que é possível, sem factos e sem provas, manter alguém
preso; só faltava que, no final, ficássemos a saber o que julgávamos para
sempre afastado: que no nosso Estado, que queremos de Direito, é possível
condenar alguém sempre sem factos e sem provas.
Até
ver, a única coisa que o Ministério Público foi capaz de dizer é que a minha liberdade
implica um "perigo" de perturbação de inquérito (no entendimento do
Ministério Público, o exercício do direito de defesa face às campanhas de
difamação, em que ele próprio consente, é muito perturbador...); e que existe o
risco de que eu fuja. Não é só o sentido do ridículo que perderam, é também o
respeito pela inteligência de todos nós.
3. O facto novo
Há,
todavia, um facto novo que tem sido diligentemente ocultado, escondido, pelo
Ministério Público. É que, tendo a investigação recebido (na verdade, já as
tinha recebido há mais de um ano) as informações bancárias relativas às tão
referidas contas na Suíça, elas confirmam que em lado algum delas sou referido.
Nem como titular, co-titular, último beneficiário ou por qualquer outra forma
que me permitisse ter acesso, ou capacidade de dispor, agora ou no futuro,
desse dinheiro. Nada!
Este
facto tem sido propositadamente escondido porque põe em crise a exótica teoria
de que o dinheiro do meu amigo é, afinal, meu, e de que ele era apenas um
«testa de ferro». Ora, se assim fosse, não poderia haver um mas vários (pelo
menos mais um) «testas de ferro». Já são «testas» a mais para a delirante
imputação.
Este
é, portanto, o verdadeiro facto novo: depois de tanta busca, de tantas escutas,
de tantos interrogatórios, depois até da resposta à carta rogatória, a
investigação não só não prova nada do que afirma, como provou exactamente o
contrário: que o dinheiro pertence a outro ou a outros, que não é meu nem nunca
foi e que não posso, nem alguma vez pude, dispor dele.
4. Os métodos do Ministério Público
Os
métodos usados pelo Sr. Procurador não param de nos surpreender - o que, aliás,
só confirma a descrição feita no artigo da Drª Paula Lourenço. Começou, claro
está, com a minha detenção no aeroporto, um propositado espectáculo, que não
visou qualquer objectivo jurídico legítimo. Não foi uma acção da justiça, foi
uma deliberada encenação.
Depois,
veio o episódio do mail. A verdade é que durante dias alguém escondeu o mail em
que expressamente pedia para ser ouvido neste processo, para depois poderem
promover a minha prisão preventiva com base na fantástica teoria do
"perigo de fuga".
Finalmente,
para não me alongar neste ponto, surge a história da carta rogatória às
autoridades Suíças. O Sr. Procurador emitiu-a em Novembro de 2013 e a resposta,
chamada “final”, só chegou mais de um ano depois, em Fevereiro de 2015. Mas o
que é aqui extraordinário é que esta demora não se deveu a qualquer atraso das
autoridades Suíças. Ela resultou, isso sim, dos pedidos e da vontade do
procurador português. Já se duvida que o Ministério Público seja livre de
promover o retardamento dos inquéritos. Mas é certamente ilegítimo usar,
depois, a demora, que ele próprio provocou, para obter o prolongamento do prazo
de inquérito e, pior, usar essa demora para justificar a prisão preventiva com
base no perigo de perturbação do inquérito, quanto à recolha dessa mesma
informação! Foi este o logro: o Procurador pediu às autoridades Suíças que
retardassem a resposta que tinham pronta para, no momento da detenção, poder
dizer que estavam ainda a decorrer essas diligências rogatórias que os arguidos
podiam "perturbar".
5. O crime de corrupção
Quanto
a este crime de corrupção – e esta imputação, sem factos e sem provas, não
passa de um insulto – a situação a que o processo chegou é pura e simplesmente
patética. Os jornais reportam que a investigação se "concentra" agora
nas suspeitas sobre os contratos do TGV, da Parque Escolar, das construções
rodoviárias e nos negócios na Venezuela. Isto é: passados todos estes meses,
nem sequer sabem dizer onde foi cometido o crime, se no TGV, se nas escolas, se
nas estradas ou se em algo completamente diferente, talvez até num país
estrangeiro (já ouvi falar de vários, de Angola à Venezuela).
Será
perguntar demais em que país do Mundo foi praticado o crime de que me acusam?
E, quanto ao momento do crime, dizem agora que o período está "bem" delimitado: entre 2005 e 2011.
Extraordinário! A pergunta é esta: como é que alguém se pode defender de uma
imputação tão vaga, se a própria acusação não sabe dizer nem quando, nem onde,
nem em quê?!
Isto
diz-nos muito acerca da verdadeira origem desta investigação: ela não nasceu
para perseguir um crime, mas para me perseguir pessoalmente, foi a caça ao
homem – esta “Operação Marquês”.
Quem
imputa crimes sem fundamento, o que faz é ofender e insultar. Quem prende para
investigar e usa a prisão como única prova não só nega a justiça democrática,
mas coloca-a sob a horrível suspeita de funcionar como instrumento de
perseguição política. Felizmente, tudo isto não passa de um “supor”...
E
pronto, velho amigo, é isto. Claro que estou ansioso por poder voltar a
conversar contigo e com os nossos amigos sobre a política e a vida. Mas, por
favor, não te preocupes com o meu ânimo. Estou forte e confiante. Isto não me
tirou a alegria."
Abraça-te
com força
o
teu, muito teu amigo,
José
Sócrates
P.S.: Uma derradeira nota,
para comentar contigo estes mais recentes desenvolvimentos, da detenção de
Joaquim Barroca, aproveitada para reanimar a campanha de difamação contra mim,
imputando-me, enquanto Primeiro Ministro, e ao meu Governo, crimes de corrupção
em favor do Grupo LENA.
Essas
imputações, melhor dito, insinuações, são falsas, ultrajantes e absurdas: como
já disse, nunca intervim, nem diretamente nem indiretamente em nenhum dos
alegados concursos que têm vindo referenciados.
E
é igualmente falso que existisse especial proximidade entre mim e Joaquim
Barroca, com quem apenas me encontrei uma meia dúzia de vezes na vida.
Mas,
mais, a afirmação de que teria havido um favorecimento do Grupo LENA é não
apenas falsa, como absurda, incapaz de resistir ao confronto com os números –
em termos relativos, o Governo actual adjudicou a este Grupo mais empreitadas
de obras públicas do que o Governo socialista (0,36%, em 2012, contra 0,25%, em
2010, mantendo-se semelhante essa comparação para os anos de 2013 e 2014). No
que diz respeito a adjudicações por ajuste directo, encontramos a mesma relação
(10% da contratação do total da construção, entre Julho de 2011 e a presente
data; 7%, entre o fim de 2008 e Junho de 2011).
Fiquemos,
então, à espera dos próximos episódios deste folhetim de mau gosto e nenhum
senso.
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domingo, 4 de janeiro de 2015
Advogado: "Sócrates não está impedido de dar entrevistas"
Pedro Delille, um dos advogados de defesa do ex-PM José Sócrates (...) rejeita que este tenha dado uma entrevista,
mas realça que ele não está impedido de o fazer(...)“nunca foi impedido” de dar entrevistas.
“Não há nenhuma decisão do director
geral” dos Serviços Prisionais nesse sentido, frisou, confirmando que o
ex-chefe de governo socialista formulou um pedido para conceder uma entrevista,
que não obteve, “até agora”, resposta.
A TVI divulgou, na sexta-feira, as
respostas escritas do ex-primeiro-ministro a seis perguntas, mas, “para efeitos
ilegais”, isso “não foi uma entrevista”, considera o advogado de defesa. “Foi o que foi: foram umas perguntas
formuladas por escrito, respondidas por escrito", distingue.
“Ano novo, vida nova. Houve um tempo que
foi para os tablóides, a partir de agora vamos esperar pela justiça, para ver o
que é que há mesmo de factos”, disse ainda o advogado, dando a entender que
Sócrates não deverá continuar a falar para a comunicação social.
Nas respostas à TVI, o
ex-primeiro-ministro alega "legítima defesa” para prestar declarações.
“Sei que quiseram inibir-me de falar”, diz, qualificando a prisão preventiva a
que está sujeito desde 25 de Novembro como "uma infâmia" (...) Lusa
sábado, 3 de janeiro de 2015
As 10 frases da defesa de Sócrates à TVI - síntese da TVI
1. «Apesar da minha insistência, nunca, em nenhum momento, nem
a acusação nem o juiz foram capazes de me dizer quando e como é que fui
corrompido».
José Sócrates revela, em exclusivo à
TVI, que não foi confrontado, durante o interrogatório do juiz Carlos
Alexandre, com factos concretos relativos aos três crimes que está indiciado:
corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco agravada. Detido no
Aeroporto de Lisboa à chegada de Paris, José Sócrates foi interrogado durante
três dias pelo juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Investigação
Criminal, tendo-lhe sido decretada prisão preventiva.
2. «A
corrupção em nome da qual me sujeitaram à infâmia desta prisão preventiva é uma
pura invenção, uma "hipótese de trabalho" teórica da investigação, um
crime presumido».
O ex-primeiro-ministro assume-se
inocente relativamente a todos os crimes de que é indiciado, acusando o
Ministério Público de inventar os pressupostos dos crimes.
3. «No caso de João
Perna, tratou-se, patentemente, de utilizar a prisão para aterrorizar uma
pessoa que julgavam vulnerável de modo a tentar obter sabe-se lá que
informação».
Sócrates acusa a Justiça de ter injustamente
detido o seu motorista como forma de obter deste informações para servirem à
acusação. Depois de preso preventivamente, recorde-se que João Perna está em
casa desde a véspera do Natal, com pulseira eletrónica, após ter sido ouvido, a
seu pedido, pelo Ministério Público.
4. «Confirmo,
sem qualquer problema, que face a algumas dificuldades de liquidez que
atravessei em certos momentos, sobretudo desde que tive parte da minha família
em Paris e eu próprio vivi entre Lisboa e aquela cidade, recorri várias vezes a
empréstimos que o meu amigo Carlos Santos Silva me concedeu para pagar despesas
diversas».
José Sócrates assume que teve de
enfrentar dificuldades financeiras que foram resolvidas com empréstimos do
amigo Carlos Santos Silva. E assume que este várias vezes lhe emprestou
dinheiro. De acordo com o que tem sido publicado na comunicação social, Carlos
Santos Silva seria o testa de ferro de Sócrates, tendo em seu nome entre cerca
de 20 milhões de euros que seriam comissões por contratos milionários obtidos
durante o tempo em que o seu amigo era primeiro-ministro.
5. «A
afirmação de que o dinheiro dele é meu é simplesmente absurda e não tem
qualquer fundamento».
José Sócrates considera esta tese
absurda e, aliás, uma «invenção» que está na base da acusação de que se diz
vítima.
6. «Nunca o
meu motorista foi a Paris; nunca me levou nenhuma mala de dinheiro; e nunca o
meu carro foi além de Espanha (onde fui passar curtos períodos de férias e
pouco mais)».
Foi publicado na imprensa que o motorista
de Sócrates foi várias vezes a Paris para lhe fazer chegar avultadas quantias
de dinheiro que eram transportadas em malas.
7. «Durante a
minha permanência em Paris, entre outras soluções em apartamentos que aluguei e
em aparthoteis em que fiquei, houve um período de apenas 10 meses em que, a
convite do meu amigo Engº Carlos Santos Silva, residi num apartamento que ele
ali comprou como investimento imobiliário».
Segundo o que a imprensa publicou, José
Sócrates seria o dono de um apartamento comprado por mais de dois milhões de
euros, numa zona rica da capital francesa. O imóvel, no entanto, estaria em
nome do amigo Carlos Santos Silva, que seria o testa de ferro para os negócios
do ex-PM. Sócrates assume que chegou a viver no referido apartamento, mas apenas
por empréstimo, durante um tempo limitado.
8. «Do
dinheiro da venda, a minha mãe, como é seu direito e é normal entre pais e
filhos, fez-me doação dos 75% que podia dar-me em vida (sendo eu filho único,
depois do falecimento dos meus dois irmãos)».
As casas que a mãe de José Sócrates
vendeu, como por exemplo, o apartamento no edifício de luxo Heron Castilho, em
Lisboa, foram adquiridas pelo amigo Carlos Santos Silva. Seriam vendas de
fachada, conforme a acusação do Ministério Público, em referências várias
publicadas na imprensa. Sócrates vem aqui assumir que estas vendas foram uma
forma do amigo Carlos Santos Silva o ajudar face às dificuldades financeiras
por que passava.
9. «Carlos e
Rui fazem negócios; Carlos e Rui são amigos de José; logo, José está envolvido
nos negócios».
José Sócrates foi acusado de ter tido
negócios na área do futebol com Rui Pedro Soares, presidente da SAD do
Belenenses, ex-administrador da Portugal Telecom, alegadamente envolvido em
escutas dos processos «Face Oculta» e «TagusPark». Ministério Público suspeita
que Carlos Santos Silva tenha usado dinheiro de José Sócrates para investir no
negócio de direitos televisivos da liga espanhola. Rui Pedro Soares já
confirmou a existência de negócios com Carlos Santos Ferreira, nomeadamente o
financiamento de dois milhões de euros à Worldcom com vista à aquisição dos
direitos televisivos referidos.
10. «Mas já
disse e mantenho: este processo, pela sua natureza, tem contornos políticos. E
digo mais: este processo é, na sua essência, político».
Não havendo, segundo Sócrates, matéria
criminal, resta concluir que se trata de um processo político. Já vários o
disseram. O primeiro foi o próprio Mário Soares, que já visitou Sócrates por
duas vezes no Estabelecimento Prisional de Évora, onde se encontra detido.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
EXCLUSIVO TVI: As respostas de Sócrates a seis questões
«Dou esta entrevista em legítima defesa. Em legítima defesa contra a sistemática e criminosa violação do segredo de justiça; e contra a divulgação de “informações” manipuladas, falsas e difamatórias. Em legítima defesa contra a transferência do julgamento para uma praça pública onde só pode fazer-se ouvir uma voz e onde só pode circular livremente uma versão deturpada das coisas. Em legítima defesa contra uma agressão feita cobardemente, a coberto do anonimato, como é típico dos aparelhos burocráticos onde reina o “governo de ninguém” – “ninguém” o exerce, “ninguém” presta contas.
Esse poder obscuro é puro arbítrio e despotismo: impunidade absoluta, limitação infundada e desproporcionada de direitos fundamentais, segredo imposto apenas à defesa, proibição de entrevistas, impossibilidade de contraditório, condenação antes de qualquer julgamento, sanção antes de qualquer sentença. Este poder, quero crer, não durará. É precário como todos os poderes assentes no medo e sobreviverá apenas até à plena tomada de consciência do perigo que representa para o processo penal justo, fundamento primeiro do Estado de Direito.
No que me diz respeito, responsabilizo directamente os que, tendo o processo à sua guarda, não o guardaram como deviam. Como está à vista de todos, não estiveram à altura das suas responsabilidades e não fizeram bem o seu trabalho. O que não me deixa outra alternativa senão fazer tudo o que estiver ao meu alcance para defender a minha honra e o meu bom nome.
Faço-o aqui, respondendo às perguntas que me foram entregues através do meu advogado, porque foram as primeiras a chegar. Lamento que o Jornal Expresso, com o qual combinei uma entrevista, tenha decidido publicar as suas perguntas (antes mesmo de eu as conhecer) desacompanhadas das respectivas respostas. Mas que fique claro: não deixarei nenhuma pergunta assim, a pairar no ar acrescentando dúvidas sem obter a devida resposta.
Pergunta 1: Foi confrontado com provas, quando foi interrogado pelo juiz Carlos Alexandre?
Essa é a questão essencial. Não, não fui – nem confrontado com factos quanto mais com provas. E isto é válido para todos os crimes que me imputam, que considero gravíssimos para quem exerceu funções públicas.
Tomemos, por exemplo, e por economia de resposta, o crime de corrupção que é, para mim, o mais detestável, o mais ignominioso que pode ser imputado a um ex-governante. Pois bem, apesar da minha insistência, nunca, em nenhum momento, nem a acusação nem o juiz foram capazes de me dizer quando e como é que fui corrompido, onde ou sequer em que país do Mundo essa corrupção aconteceu, nem por quem, a troco de quê, qual a vantagem que obtive ou qual a que concedi, lícita ou ilícita. Nada, rigorosamente nada!
Esta é a verdade. Por estranho que pareça - e deve parecer estranho porque não conheço nenhum caso semelhante - a corrupção em nome da qual me sujeitaram à infâmia desta prisão preventiva é uma pura invenção, uma "hipótese de trabalho" teórica da investigação, um crime presumido, sem qualquer concretização ou referência no tempo ou no espaço e do qual não há, nem podem existir, indícios ou provas. E por uma razão simples: porque não aconteceu. O que afirmo, portanto, é que fui detido e preso (preventivamente) sem me terem sido referidos nem factos, nem provas de que tenha cometido quaisquer crimes, a começar pelo crime de corrupção que estaria na origem de tudo. A partir daí, este processo é todo ele uma caixinha de presunções, em que as presunções assentam umas nas outras numa construção elaborada mas absolutamente delirante. Começando por presumir, sem qualquer sustentação digna desse nome, que o dinheiro do Engº Carlos Santos Silva é afinal meu, deu-lhes para presumir, embora sem qualquer prova ou indício, que obtive esse dinheiro através de corrupção, sabe-se lá quando nem onde. E é com base nesta teoria, toda ela inventada, que presumem também os outros crimes porque, a partir daí, todas as movimentações financeiras daquele dinheiro são entendidas como operações minhas que configuram branqueamento de capitais e fraude fiscal. É uma imaginativa cascata de presunções. Mas não passa disso.
Como já escrevi, a prisão preventiva foi aqui utilizada para investigar mas também para aterrorizar, para despersonalizar - e para calar. Hoje, quero dizer mais: neste caso, prendeu-se também para, em certo sentido, "provar". Porque quem quis esta prisão infundada sabe bem que a prisão funciona como prova aos olhos da opinião pública – "se está preso alguma coisa deve ter feito", é o que as pessoas tenderão a pensar. E muitas, na sua boa-fé, estarão convencidas de que para haver prisão preventiva é porque hão-de existir, na parte ainda secreta do processo - por azar, logo aquela única parte a que os jornais não conseguiram ter acesso... - "provas muito sólidas" ou pelo menos "indícios muito fortes" da prática dos tais crimes graves. Mas a verdade é que não há. E todos sabemos que se isso existisse já teria sido publicado nos jornais do costume! Só que, entretanto, aos olhos da opinião pública, a prisão substitui-se ao processo, à investigação, à instrução, aos indícios, às provas, ao contraditório, ao julgamento - e até à sentença. Afinal, se ele está preso, que mais é que ainda é preciso provar? A resposta, porém, por estranho que pareça, é esta: tudo. Falta provar rigorosamente tudo.
Isto, obviamente, é gravíssimo. Mas não é, ao contrário do que alguns têm dito, um problema da lei, que até evoluiu no sentido de contrariar o abuso da prisão preventiva. Não tenho a mínima dúvida de que esta prisão preventiva é ilegal e por isso confio no sucesso do recurso que a minha defesa apresentou. Grave é que se tenham degradado tanto os valores do nosso Estado de Direito a ponto de se ter instalado uma cultura de tolerância para com tudo isto: prisões sem provas ou sequer fortes indícios de crimes que ao menos se perceba quais são! Lamento dizê-lo, mas daqui à suspeita de perseguição política não é um passo de gigante, é um pequeno passo.
Pergunta 2: Como encara o que está a acontecer? E, caso tenha acesso, como encara o que tem sido publicado?
Ao que já foi dito, junto apenas a observação seguinte: à prisão física sempre quiseram somar, em certo sentido, a prisão na opinião pública. De um lado, podem ser divulgadas todas as mentiras e todas as falsidades; do outro, são proibidas as entrevistas e coartado o direito de defesa da honra. Não me submeto a tal imposição, que é contrária aos direitos fundamentais. Mas sei que quando decidiram proibir-me de falar, o que pretendiam conseguir era que tudo estivesse do lado deles – o procurador, o juiz, os jornais. E podem, de facto, ter muito do lado deles. Menos a verdade. Essa, não está do lado deles. E é pelo triunfo da verdade que lutarei.
Pergunta 3: Como classifica a prisão do seu amigo Carlos Santos Silva e do seu motorista João Perna?
Ambas são, cada uma à sua maneira, injustas e injustificadas. No fundo, essas prisões foram ordenadas, como a minha, sem factos que as possam fundamentar. E isso é terrível!
No caso de João Perna, tratou-se, patentemente, de utilizar a prisão para aterrorizar uma pessoa que julgavam vulnerável de modo a tentar obter sabe-se lá que informação. Um abuso.
No caso do engenheiro Carlos Santos Silva, dói-me profundamente a sua situação, que permanece. Somos amigos há 40 anos, a nossa amizade é anterior ao início da nossa atividade profissional. É uma relação especialmente fraterna. E não posso esquecer que este meu amigo está a sofrer na prisão essencialmente por ser meu amigo e por me ter ajudado quando precisei.
No caso de João Perna, tratou-se, patentemente, de utilizar a prisão para aterrorizar uma pessoa que julgavam vulnerável de modo a tentar obter sabe-se lá que informação. Um abuso.
No caso do engenheiro Carlos Santos Silva, dói-me profundamente a sua situação, que permanece. Somos amigos há 40 anos, a nossa amizade é anterior ao início da nossa atividade profissional. É uma relação especialmente fraterna. E não posso esquecer que este meu amigo está a sofrer na prisão essencialmente por ser meu amigo e por me ter ajudado quando precisei.
Pergunta 4: Que comentário lhe merece as suspeitas que têm surgido a propósito do apartamento de Paris e do seu estilo de vida, da venda das casas da sua mãe, dos negócios com Rui Pedro Soares, das entregas de dinheiro que Carlos Santos Silva lhe fez, e das idas a Paris do seu motorista alegadamente com malas de dinheiro?
Respondo, um a um, aos vários pontos referidos, porque é preciso que nada fique por esclarecer. Mas não quero deixar de chamar a atenção para o mais importante: os “factos circunstanciais” que me imputam não têm rigorosamente nenhuma conexão com crimes. Nenhuma. Por vezes chega a ser difícil separar a investigação e as notícias que têm vindo a ser publicadas da pura bisbilhotice (ou devassa). Mas vamos por partes.
A) As "entregas de dinheiro" do Eng. Carlos Santos Silva
Confirmo, sem qualquer problema, que face a algumas dificuldades de liquidez que atravessei em certos momentos, sobretudo desde que tive parte da minha família em Paris e eu próprio vivi entre Lisboa e aquela cidade, recorri várias vezes a empréstimos que o meu amigo Carlos Santos Silva me concedeu para pagar despesas diversas. Mas, sinceramente, não me parece que pedir dinheiro emprestado a um amigo seja crime, nem aqui nem em nenhuma parte do Mundo! Sempre foi, como continua a ser, minha intenção pagar-lhe o que for devido, apesar da informalidade da nossa relação e da grande amizade pessoal que nos une desde há muitos anos. É um assunto que resolverei com ele e que só a nós diz respeito.
Para o caso, o que importa deixar claro é que o facto de o Engº Carlos Santos Silva me ter emprestado dinheiro, muito ou pouco, não transforma o dinheiro dele em dinheiro meu! Isso, convenhamos, é um completo disparate! Acontece que o Engº Carlos Santos Silva detém, como é sabido, meios próprios de fortuna pessoal fruto da sua diversificada atividade empresarial em vários países do Mundo. E, sendo meu amigo, esteve disponível para me ajudar quando eu precisei. Estou-lhe grato por isso. Mas não deixarei de lhe pagar! A afirmação de que o dinheiro dele é meu é simplesmente absurda e não tem qualquer fundamento.
B) O motorista, Paris e as "malas de dinheiro"
Aqui entramos na dimensão galáctica da investigação. A verdade, como já foi explicado pelo meu advogado, é esta: nunca o meu motorista foi a Paris; nunca me levou nenhuma mala de dinheiro; e nunca o meu carro foi além de Espanha (onde fui passar curtos períodos de férias e pouco mais). Mas o que acho curioso é que certos jornais e certos jornalistas se tenham disponibilizado para escrever que haveria no processo fotografias fatais do motorista a transportar as tais "malas de dinheiro" para Paris. Porque é exatamente aqui que toda esta história passa do cinzento filme policial para o mundo fantástico da ficção científica: o momento memorável em que surgem em cena essas máquinas fotográficas tão espantosas e tão avançadas que tiram fotografias onde até se consegue ver o que vai dentro das malas...!
O facto de a acusação ter posto a correr nos jornais esta pura invenção diz muito sobre os métodos de uns e de outros. E mostra bem até onde estão dispostos a ir para me atingir. Não tenho, hoje, a menor dúvida: para alguns, vale tudo.
C) O "apartamento de luxo" em Paris
Factos. Em 2011, depois de sair do Governo, aluguei um apartamento em Paris, onde vivi um ano. Só mais tarde, a partir de meados de 2012, e por cerca de 10 meses, habitei num outro apartamento, o tão falado "apartamento de luxo" de que é proprietário o meu amigo Engº Carlos Santos Silva. Residi aí apenas enquanto não começaram as obras de restauro que ele tinha planeado para recolocar esse apartamento no mercado (como de facto fez, a partir de finais de 2013). Assim, quando as obras começaram (Verão de 2013), saí desse apartamento, tendo a minha família passado a viver num aparthotel, durante cerca de 4 meses (Setembro a Dezembro de 2013). Depois, desde Janeiro de 2014, aluguei um novo apartamento, onde vivi, e viveu também a minha família, ao longo do último ano. No momento em que escrevo, ainda estou a pagar essa renda (sendo que o contrato termina em 31 de Dezembro de 2014).
A tese que me imputa ser eu o dono do famoso "apartamento de luxo" de Paris, para além de não ter a mais pequena sustentação - que não tem - é também completamente absurda! Como será óbvio para quem esteja de boa-fé, se eu quisesse realmente comprar uma casa para ficar durante o período do meu curso em Paris (cerca de dois anos) não iria escolher, já quase no final do primeiro ano, um apartamento a precisar de obras, para depois ter de enfiar a minha família durante meses num aparthotel!
E menos sentido faz que eu, sendo alegadamente proprietário (por interposta pessoa) desse tal "apartamento de luxo", tenha precisado de alugar um novo apartamento a partir de Janeiro de 2014, quando já estavam concluídas as obras no fantástico apartamento que dizem ser "meu"!
Por aqui se vê que toda a tese da investigação sobre as casas de Paris, além de falsa, é um verdadeiro monumento ao absurdo. Vejamos: através do meu amigo, eu teria comprado um apartamento de luxo para morar durante o meu curso em Paris; por razões que a razão desconhece, em vez de escolher um apartamento pronto a habitar, fui logo escolher um apartamento que precisava de obras; e quando terminaram as obras, em vez de ir morar para lá, "à grande e à francesa", acabei afinal por ir morar para outro lado, um apartamento mais pequeno que aluguei e tive de pagar! Creio que todos já terão compreendido o óbvio: nada disto faz sequer sentido.
E menos sentido faz que eu, sendo alegadamente proprietário (por interposta pessoa) desse tal "apartamento de luxo", tenha precisado de alugar um novo apartamento a partir de Janeiro de 2014, quando já estavam concluídas as obras no fantástico apartamento que dizem ser "meu"!
Por aqui se vê que toda a tese da investigação sobre as casas de Paris, além de falsa, é um verdadeiro monumento ao absurdo. Vejamos: através do meu amigo, eu teria comprado um apartamento de luxo para morar durante o meu curso em Paris; por razões que a razão desconhece, em vez de escolher um apartamento pronto a habitar, fui logo escolher um apartamento que precisava de obras; e quando terminaram as obras, em vez de ir morar para lá, "à grande e à francesa", acabei afinal por ir morar para outro lado, um apartamento mais pequeno que aluguei e tive de pagar! Creio que todos já terão compreendido o óbvio: nada disto faz sequer sentido.
Em contrapartida, a verdade, talvez por não ser inventada, tem também a vantagem de ser muito mais compreensível do que a absurda teoria da investigação: durante a minha permanência em Paris, entre outras soluções em apartamentos que aluguei e em aparthoteis em que fiquei, houve um período de apenas 10 meses em que, a convite do meu amigo Engº Carlos Santos Silva, residi num apartamento que ele ali comprou como investimento imobiliário, com a intenção de o valorizar (fazendo obras) e depois revender com lucro - como está, de facto, a tentar fazer. Enquanto as obras não começaram, aproveitei o convite e fiquei lá; assim que as obras começaram, tive de sair e procurar por mim outras soluções. Há suspeitas que só existem quando se quer muito acreditar nelas!
D) A venda da casa da minha mãe
Respondo à questão da venda do apartamento da Rua Braamcamp, já que a venda dos outros dois (no Cacém) foi conduzida pelo meu falecido irmão e não tenho ainda comigo todos os elementos (só poderia citar os pormenores de memória, por ouvir dizer, e não quero correr o risco de errar).
Mas da venda da casa da minha mãe em Lisboa ocupei-me eu e conto rapidamente a história, que é simples. Em 2011, quando fui viver para Paris, a minha mãe ficou a viver sozinha no prédio da Braancamp. Em 2012, comunicou-me que queria ir viver para outro apartamento que tem em Cascais, onde teria pessoas queridas por perto. Uns tempos depois, eu próprio falei com o Eng. Carlos Santos Silva e contei-lhe da vontade da minha mãe, tendo ele manifestado interesse em comprar o apartamento que iria ficar disponível em Lisboa, desde que o preço fosse razoável.
Mas da venda da casa da minha mãe em Lisboa ocupei-me eu e conto rapidamente a história, que é simples. Em 2011, quando fui viver para Paris, a minha mãe ficou a viver sozinha no prédio da Braancamp. Em 2012, comunicou-me que queria ir viver para outro apartamento que tem em Cascais, onde teria pessoas queridas por perto. Uns tempos depois, eu próprio falei com o Eng. Carlos Santos Silva e contei-lhe da vontade da minha mãe, tendo ele manifestado interesse em comprar o apartamento que iria ficar disponível em Lisboa, desde que o preço fosse razoável.
Assim, pediu-se uma avaliação prévia do valor do imóvel, estabeleceu-se o preço, fez-se a escritura e o apartamento mudou de dono - que, julgo eu, o renovou e o alugou em seguida.
Do dinheiro da venda, a minha mãe, como é seu direito e é normal entre pais e filhos, fez-me doação dos 75% que podia dar-me em vida (sendo eu filho único, depois do falecimento dos meus dois irmãos). E faço notar o seguinte, que me parece importante: esta venda não aumentou em nada o meu património ou o da minha família. O que se fez foi trocar o imóvel que a minha mãe já tinha pela liquidez correspondente ao seu verdadeiro valor. O património que já estava na família permaneceu na família, agora convertido em liquidez. Uma venda, aliás, é isso mesmo. E foi o que foi feito.
Do dinheiro da venda, a minha mãe, como é seu direito e é normal entre pais e filhos, fez-me doação dos 75% que podia dar-me em vida (sendo eu filho único, depois do falecimento dos meus dois irmãos). E faço notar o seguinte, que me parece importante: esta venda não aumentou em nada o meu património ou o da minha família. O que se fez foi trocar o imóvel que a minha mãe já tinha pela liquidez correspondente ao seu verdadeiro valor. O património que já estava na família permaneceu na família, agora convertido em liquidez. Uma venda, aliás, é isso mesmo. E foi o que foi feito.
Acho espantoso que alguém pretenda ver nisto uma "venda simulada", como agora dizem. Tanto quanto imagino, as vendas verdadeiramente simuladas não se fazem pelo preço de mercado, não obrigam ao abandono do imóvel pelo vendedor e não acabam no aluguer a terceiros pelo novo proprietário! Esta é apenas outra história mal contada por quem conduz esta investigação contra mim.
E) Negócios do futebol com Rui Pedro Soares
Bom, este ponto, se não fosse trágico, era de rir à gargalhada. A resposta é simples: não tenho nada que ver com os negócios entre o Eng. Carlos Santos Silva e o Dr. Rui Pedro Soares. Ponto. Não tive deles conhecimento, nem tinha que ter; não conheço as empresas de que falam, nem sei quem são os seus gerentes ou administradores. Em suma, nada sei e nada tenho que ver com tais negócios. Mas o que mais me impressiona nesta história é o fantástico silogismo da investigação, de extraordinário alcance: Carlos e Rui fazem negócios; Carlos e Rui são amigos de José; logo, José está envolvido nos negócios. Notável, não vos parece?
Pergunta 5: É verdade que sabia que estava a ser investigado? Desde quando?
Não, não sabia, não fazia a mínima ideia (até às buscas em casa do meu filho). Tento não ligar muito aos rumores e dou algum desconto às notícias de certos jornais. De qualquer modo, depois do episódio da revista Sábado, com o desmentido da Procuradoria Geral da República, nunca mais liguei a isso.
Pergunta 6: A menos de um ano de eleições, considera que este processo pode ter fins políticos?
Desconheço as motivações deste estranho processo sem indícios nem provas, onde todos os crimes são vagamente presumidos e só a prisão é concreta.
Mas já disse e mantenho: este processo, pela sua natureza, tem contornos políticos. E digo mais: este processo é, na sua essência, político. No sentido em que tem que ver com o poder, os seus limites e o seu exercício; o poder de deter para interrogar e o poder de prender preventivamente pessoas inocentes. Já para não falar nas consequências que este processo inevitavelmente terá na disputa política. Veremos quais. Como já disse, isto ainda agora começou.
Mas já disse e mantenho: este processo, pela sua natureza, tem contornos políticos. E digo mais: este processo é, na sua essência, político. No sentido em que tem que ver com o poder, os seus limites e o seu exercício; o poder de deter para interrogar e o poder de prender preventivamente pessoas inocentes. Já para não falar nas consequências que este processo inevitavelmente terá na disputa política. Veremos quais. Como já disse, isto ainda agora começou.
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