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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

"Os jornalistas parecem estar resignados às versões dos instalados no poder"

VALDEMAR CRUZAs principais censuras têm hoje uma dimensão económica, defende a investigadora da Universidade do Minho, que acaba de publicar o livro "Jornalista, profissão ameaçada".

Os jornalistas estão sob pressão, a democracia já viveu melhores dias nas redações e assiste-se no dia a dia ao pisar de incontáveis linhas vermelhas por diversos atores. O resultado é um permanente pôr em causa da liberdade de imprensa, com a profissão cada vez mais ameaçada. 
As conclusões são de Felisbela Lopes, investigadora na área dos media da Universidade do Minho, e surgem como resultado natural da leitura do livro "Jornalista, profissão ameaçada", que é apresentado esta quarta-feira na Livraria Alêtheia, na Rua do Século, 13, em Lisboa, pelas 18h30.
Logo a abrir o livro, Felisbela, ela própria ex-jornalista, faz uma espécie de rápido retrato do estado da arte quando, num só parágrafo, elenca grande parte dos dilemas, dos desafios, dos constrangimentos com que se debatem os jornalistas sob pressão em estado de permanência.  
É a "pressão para ser rentável. Pressão para fazer a cobertura de determinado acontecimento. Pressão para ouvir este ou aquele interlocutor. Pressão para não afrontar os acionistas ou financiadores da sua empresa. Pressão para cumprir leis que não deixam margem para noticiar factos com relevância noticiosa. Pressão para trabalhar depressa. Pressão para ser o primeiro a anunciar a última coisa que acontece. Pressão para multiplicar conteúdos em diversas plataformas. Pressão para atender àquilo que os cidadãos dizem nas redes sociais".  
Como não é fácil trabalhar com tantas condicionantes, a investigadora sugere que "atualmente ser jornalista é aceitar exercer uma profissão que está sob ameaças de vária ordem. E isso deveria suscitar um amplo debate público". 
Até porque há uma panóplia de novas censuras a serem exercidas. A mais importante, a mais eficaz, a mais paralisante será a que resulta das condicionantes económicas. Como diz Felisbela Lopes, "estão aí as principais censuras, transpostas na diminuição de meios, na redução das equipas, na limitação dos trabalhos". Com a liberdade de imprensa em risco "face a empresas jornalísticas demasiado concentradas no lucro", diz a investigadora, "a dependência dos anunciantes é colossal. O medo dos administradores é real". 

O PÂNICO DE PERDER O EMPREGO

Com a permanente alegação de que "não há dinheiro", o dia a dia das redações está transformado numa espécie de caldeirão mágico de onde sai uma poção cujos efeitos ainda ninguém conhece por inteiro, em que "é preciso fazer mais com menos. É preciso fazer. E no meio de tudo isto, ressalta o pânico de perder o emprego", num meio em que, como assinala no livro uma jornalista sénior, "as direções foram sequestradas pelas administrações que, por sua vez, foram sequestradas pelos anunciantes".  
O livro nasce a partir da vontade de questionar os constrangimentos enfrentados na atualidade pela profissão de jornalista. Para concretizar o projeto, Felisbela resolveu dirigir algumas perguntas a 100 jornalistas, a quem pedia respostas muito curtas. A grande surpresa, diz a investigadora ao Expresso, "é que foi muito fácil fazer o livro com esta parceria em que os jornalistas foram muito prontos a responder". 
As respostas são múltiplas e variadas, abrangem temáticas diversas e contêm algumas tiradas paradigmáticas, como quando alguém diz que "o cartão de crédito se converteu no novo lápis azul", ou quando um jornalista, face à tendência generalizada das empresas para assumirem compromissos noutras circunstâncias inaceitáveis, mas agora justificados com a necessidade de rentabilidade, defende que "outro galo cantaria se se percebesse que a independência dá dinheiro".  
Em "Jornalista, profissão ameaçada" levantam-se vários problemas de grande atualidade, como a crescente concentração dos grupos mediáticos, muitas vezes sem ser claro quem detém a propriedade daquelas estruturas. No caso concreto de Portugal, a existência de um reduzido número de grupos de media comporta riscos, que Felisbela elenca.
Com as empresas a assumirem como prioridade "racionalizar custos e maximizar lucros", num ambiente de profunda retração do mercado publicitário, "os media tentam fazer a quadratura do círculo: fazer mais (conteúdos) com menos (dinheiro e profissionais)". A consequência é visível "numa redução drástica da qualidade daquilo que se faz". 
Depois há o problema da uniformização dos conteúdos mediáticos, em que a multiplicação de meios de comunicação social não resulta numa diversidade de conteúdos, nem tão pouco, acrescenta Felisbela Lopes, "num acréscimo de qualidade daquilo que é produzido". 
Se somarmos a tudo isto "jornalistas precários e com medo" consegue-se porventura perceber melhor o caldo em que se movimenta uma classe que vê a liberdade de imprensa em risco face à hegemonia das fontes do poder dominante. A investigadora assume que "a revolução já não se faz nos media", mas acrescenta que "os jornalistas parecem estar resignados às versões daqueles que se instalaram no poder".  
Nesse sentido, conclui, torna-se imperioso "agitar redações que se anestesiaram em relação àquilo que se passa nas bordas da sociedade e que, de repente, pode aproximar-se perigosamente do centro". (


quarta-feira, 22 de julho de 2015

(JN) Felisbela Lopes - "A inevitabilidade dos caciques"

As eleições legislativas abrem às estruturas locais uma inescapável oportunidade para imporem os seus candidatos em lugares elegíveis. São, por norma, gente do aparelho, sem grande brilho profissional, nem assinalável notoriedade pública. Mas com grandes competências na arte de dominar processos eleitorais. No próximo ciclo legislativo, esses deputados lá estarão a decidir em nome de uma nação que dificilmente encontrará aí os seus representantes.
Não será simples a empreitada de constituir listas para eleições legislativas. Porque aqueles que importa atrair mostram desinteresse por qualquer envolvimento com os partidos e porque aqueles que seria ajuizado afastar se revelam inevitáveis para pôr em marcha uma campanha pelo chamado país real. Por isso, em qualquer circunscrição eleitoral há sempre o cabeça de lista que se apresenta com alguma singularidade e todos os outros que, por norma, não convém muito conhecer, porque aí se misturam muitas e variegadas gentes. Gente inteligente e gente assustadoramente ignorante. Gente com espírito de serviço público e gente com inconfessáveis vícios privados. Gente com interesse e gente sem qualidades. Essa gente senta-se lado a lado, em bancadas que deveriam ser povoadas de deputados de elevada competência.
Nos últimos tempos, os partidos vêm revelando um certo interesse pelos chamados independentes que têm a enorme vantagem de ajudar a renovar a classe partidária. Mas o seu contributo vai além disso. Num país em que os políticos profissionais têm licenciaturas com pés de barro e carreiras pouco estruturadas, os independentes fazem uma espécie de lavagem de curriculum de listas que se sabem pouco consistentes. Estão ali a disputar eleições e teoricamente deixam para trás uma profissão a que dedicaram todo o esforço e onde conquistaram inegável reconhecimento. Ora, na verdade, estes processos não serão assim tão lineares, porque, nas curvas e contracurvas de um percurso eleitoral, há sempre variáveis que invertem essas aparentes boas intenções.
Será, decerto, inverosímil pensar que os candidatos independentes com carreiras longas e sólidas fora da política estão ali a disputar um lugar na quarta fila do hemiciclo ou uma discreta presença em qualquer comissão onde os deputados profissionais se impõem. Na maior parte dos casos estão ali ao serviço da notoriedade ou em trânsito para qualquer cargo num futuro Governo ou numa administração de uma instituição pública. Uma campanha é apenas uma espécie de aquecimento para uma corrida que se desenrolará com outros parceiros a um outro ritmo. Mas não se pense que estes independentes têm vida fácil nesta fase da sua vida política partidária. Não têm. Porque, por regra, as estruturas concelhias e distritais consideram estes candidatos como arrivistas a quem convém demonstrar quem manda. A colisão, por vezes, revela-se inevitável. Por isso, estas apostas são sempre de alto risco para quem faz o convite e para quem aceita o desafio. A margem de recuo aqui é nula, mas o espaço para tudo correr mal é gigantesco.
À vontade de inovar dos independentes, o caciquismo local contrapõe velhas estratégias que se apresentam como incontornáveis possibilidades práticas de ação. À intenção de alargar a rede daqueles que podem integrar uma candidatura, o caciquismo local prefere fazer campanha com as bases que muitas vezes cristalizaram à volta de discursos que ninguém ouve. Não deve ser fácil trabalhar assim, mas em muitos círculos e em vários partidos esta realidade estará muito presente nas próximas semanas. Será vivida intensamente nos bastidores e disfarçada nos palcos partidários.
Poder-se-ia abrir aqui um intervalo de tolerância para aquilo que não será o melhor ambiente numa campanha eleitoral. Mas há que considerar também o período pós-eleitoral onde cada partido sabe (muito bem, aliás) que senta na Assembleia da República deputados pouco qualificados. Estão ali por lógicas partidárias. Apenas. E é isso que nos faz desesperançar de olhar para a casa da democracia como o lugar onde estão os melhores de entre nós.