sexta-feira, 14 de agosto de 2015

(Opinião - DV) Conversa sobre a espuma das coisas

Conversa sobre a espuma das coisas

A “silly season” vai a meio e ficará certamente marcada pela novela dos cartazes. Da parte do PS já sabemos o que se passou. Tudo terminou com a substituição do diretor de campanha, Ascenso Simões, por Duarte Cordeiro, vice-presidente da câmara de Lisboa. O estilo proclamatório deu lugar ao “low profile” e à aposta na figura política com mais notoriedade: António Costa.
A maioria, sobretudo o PSD, pareceu não ter aprendido nada e rapidamente se substituiu ao PS nos deslizes. Com efeito, contratou uma empresa que a partir de um banco de imagens profissional fez avançar cartazes com gente que tão depressa reconhecemos na publicitação do slogan “mais mulheres no mercado de trabalho”, como na de um grau de formação de uma qualquer escola de um qualquer país estrangeiro. Poderemos mesmo encontrar a mesma pessoa a divulgar a marca de uma pasta de dentes ou de azeite com pouca acidez.
Nos dois casos vamos concluir que na mensagem política houve falta de cuidado, rigor, e, sobretudo, de respeito e autenticidade perante o eleitor. Ora, acontece, que são estas últimas virtudes as que ele valoriza melhor, porque se aproximam de uma coisa que hoje, como nunca, exige: verdade.
A algazarra foi de tal modo enfatizada que preencheu primeiras páginas de jornais, telejornais, comentadores, politólogos e por aí adiante. O que realmente ficou por discutir, porque se perdeu mediaticamente, foi a verdade dos números do emprego ou da destruição do mesmo, dos falaciosamente ocupados ou dos emigrados, do aumento do défice das empresas públicas, da aparente quebra fiscal ou do desequilíbrio entre importações e exportações.
A sustentabilidade da segurança social, a solidariedade intergeracional, o crescimento e o emprego, as políticas para defesa do investimento em ciência e inovação, ou tudo aquilo que é absolutamente necessário realizar para aproximar os serviços das pessoas, de estimular o acesso e celeridade na justiça, do acesso à saúde e ao direito conseguido de ter médico de família, ficou no tinteiro. Não, nada disto entrou no “prime time“ do interesse público e da discussão política.
Penso que dentro de uma semana, se tanto, mais ninguém ouvirá falar dos celebérrimos cartazes, nem tão pouco das suas mensagens. A “silly season” é mesmo isto, período de importâncias efémeras.

E enquanto os eleitores não regressarem todos de férias e as máquinas de campanha não afinarem, teremos talvez, nas duas semanas mais próximas, uma agenda marcada pelo início do campeonato de futebol e, sobretudo, conversa sobre a espuma das coisas.

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