sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ricardo Junqueiro - "Aprender com os erros" (Económico)

Ricardo Junqueiro
(Advogado)

(Opinião - Económico) Bill Gates, fundador da Microsoft, é um dos maiores empresários da história. Ao génio informático aliou sempre a consciência de que para ter sucesso é fundamental aprender com os erros.
Numa empresa como a Microsoft que, ao contrário de outros gigantes do sector, sempre se manteve na liderança da evolução informática e do mercado, não foram muitos os erros próprios donde extrair lições. Por isso, Bill Gates contratou antigos gestores de grandes empresas que falharam. Assim, a Microsoft contaria nas suas fileiras com a experiência dos que erraram e que estão melhor posicionados para reconhecer e alertar para os erros fatais que os levaram ao abismo.
Vem isto a propósito da crise que vivemos e da necessidade que a sociedade ocidental em geral, e o nosso país em particular, têm de aprender com os erros que nos conduziram até aqui. Muito já se escreveu sobre a origem da crise. Os comportamentos especulativos das instituições financeiras são frequentemente apontados como tendo tido um papel decisivo no descarrilar da carruagem. A fragilidade do nosso tecido empresarial, onde não existe uma cultura de concorrência nem de inovação e onde proliferam os entendimentos de cavalheiros, é também vista como uma das razões para a falta de competitividade da nossa economia e a consequente incapacidade de gerar emprego.
Mas, pode questionar-se, o que fizemos de errado até aqui a este respeito? Uma das coisas que seguramente não fizemos bem foi a forma como regulámos os nossos mercados e vigiámos as nossas empresas. Reguladores fortes e presentes a nível nacional e internacional são essenciais para fazer respeitar as regras do jogo, garantindo o normal funcionamento dos mercados e a existência de uma economia competitiva, uma pedra essencial para o tão desejado crescimento económico.
O País precisa de reguladores com capacidade para limitar abusos, identificar problemas e resolvê-los com competência, eficácia e independência. Com capacidade para perceber quando é necessário intervir e quando é preferível deixar a coisa andar. Com algumas honrosas exceções em sectores específicos, até aqui não os temos tido. E numa altura em que a diminuição de recursos públicos é um dado com que temos que viver, é mais importante que nunca definir uma estratégia que garanta que as regras do jogo são respeitadas e que temos reguladores que dispõem dos recursos necessários para reforçar a sua capacidade técnica e independência, fazendo a sua parte para ajudar a economia do país a tornar-se mais competitiva.
É por isso que fundir a ERSE, a ANACOM e a Autoridade da Concorrência, ou impor-lhes significativas limitações de funcionamento, nomeadamente as que lhes reduzem a autonomia de contratação de recursos, gestão de salários, definição de promoções, ou até de gestão financeira, poderá não ser uma boa ideia. Embora a poupança de custos possa, nesta fase, parecer aliciante, cada regulador acabará por dispor de menos meios para desempenhar a sua missão. E uma poupança imediata nas contas do Estado poderá ter o reverso da medalha e aligeirar a regulação de que necessitamos.
Em suma, é difícil resistir a lembrar que, ao contrário da Microsoft, em Portugal não precisamos ir fora de portas buscar quem tenha experiência em falhanços. Temo-los entre nós. Mas importa aprender com os erros passados e não procurar poupanças imediatas que acabarão a contribuir para aumentar a conta final.
Ricardo Junqueiro, Advogado

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